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Seca

Chuva “é uma bênção” para pastagens no Ribatejo mas insuficiente para os agricultores

18/10/2023 às 19:19
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As chuvas dos últimos dias são uma bênção para as pastagens e abeberamento do gado no Ribatejo Norte, mas não repõem os níveis freáticos nem resolvem os problemas que a seca prolongada trouxe aos agricultores do Médio Tejo.

“Os efeitos da seca continuam a fazer-se sentir, sendo que esta chuva foi uma bênção e veio atenuar a seca que temos, nomeadamente ao nível das pastagens, mas ainda precisa de chover muito para que tenhamos reposição de um ano normal”, disse à Lusa o presidente da Associação de Agricultores dos concelhos de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação, no distrito de Santarém, sublinhando que “choveu muito em pouco tempo”, sem reposição dos níveis freáticos.

“Estas chuvas foram de escorrimento, ou seja, a água que caiu em catadupa segue pelo Tejo para o mar, tirando na albufeira de Castelo do Bode, que permite armazenar, e não é suficiente para alimentar os lençóis de água”, afirmou Luís Damas, tendo indicado “necessidade de chuva constante e mais prolongada no tempo”, e manifestado a esperança e a expectativa dos agricultores em que tal suceda.

Segundo o responsável, "estas chuvas são uma bênção” para a pecuária, “pois a erva vai crescer dentro de um ou dois meses e permitir alimentar o gado”, ao contrário do que hoje sucede, mas “as chuvas de enxurrada também não são boas porque a água perde-se toda e pode também provocar erosão” dos terrenos.

“O que queremos é uns dias de chuva mais miudinha e dias consecutivos para que esta água fique na terra e seja absorvida e que depois vá também para os níveis freáticos e para os lençóis de água”, vincou aquele responsável, que representa cerca de 300 produtores agrícolas da região, tendo feito notar, no entanto, que “a erva e a biomassa só vão estar disponíveis daqui a dois ou três meses para que o gado as possa comer”.

Questionado sobre as reservas hídricas na exploração de sequeiros e também de regadio, Luís Damas indicou “algumas situações onde houve problemas e os furos colapsaram”, devido aos lençóis freáticos.

“Foi um ano de muito calor, pouca chuva neste período e o país, antes desta chuvada, estava em 86% de seca severa no território todo e isso paga-se. Todas as pessoas estão a exigir cada vez mais dos furos e os níveis freáticos estão também a baixar e a escassear”, notou, tendo indicado haver proprietários a desistir da agropecuária por causa dos “elevados custos de produção”.

Neste cenário, e com a “inexistência de pastagens, palhas e fenos e elevados custos de produção, as ajudas já não chegam para compensar as perdas de rendimento e muitos produtores tiveram de vender animais e reduzir o efetivo, ou até mesmo, cessarem a atividade”, indicou Damas.

O responsável criticou o não adiantamento de apoio financeiro por parte da tutela aos agricultores no mês de outubro, como habitualmente sucedia, tendo indicado que o Ministério da Agricultura “está a fazer ao contrário” e “está a pagar ainda mais tarde” do que era normal.

“Depois de um ano destes, de seca e de custos de energia e gasóleo, num ano em que os agricultores deviam ter mais apoio, vai ser ao contrário e, em vez de ser 80%, que era no final de outubro, vai ser novembro ou dezembro, ainda não se sabe bem. Portanto, é um ano até atípico nisso”, notou, dando conta, no entanto, de “alguns pagamentos” e “ajudas por causa da guerra e ao gasóleo” agrícola.

O dirigente agrícola defendeu a criação de “apoios em sede fiscal e de infraestruturas públicas que permitam a retenção e o armazenamento de água” na região, nomeadamente com a “construção da barragem do Ocresa”, e apelou a um “apoio aos investimentos privados que permitam a criação de charcas e pequenas barragens através de um ‘simplex’ que assegure que os processos sejam práticos, que não sejam muito burocráticos e que não dificultem muito a vida” aos agricultores.

“É preciso que os pequenos agricultores sejam vistos não só como elementos importantes para produzir alimentos, mas também na ótica de proteger a paisagem e proteger as aldeias com a sua atividade agrícola, em locais que precisam de gente e que não podem deixar essa gente ir embora. Porque ainda há lutadores e resistentes nesses territórios que devem ser apoiados numa ótica de um serviço público que estão a fazer à comunidade”, afirmou.

Lusa