Depressão Kristin Vila Nova da Barquinha sem eletricidade, com solidariedade e atenção às cheias
A freguesia de Praia do Ribatejo permanece há quatro dias sem eletricidade, com interrupções no abastecimento de água e comunicações, numa situação agravada pela subida gradual do caudal do Tejo.
“O foco principal continua a ser a Praia do Ribatejo, onde as famílias ainda não têm luz, e estamos a garantir apoio imediato a quem mais precisa”, afirmou hoje à Lusa o presidente da Câmara Municipal, Manuel Mourato, no âmbito do acompanhamento da situação na freguesia e em Tancos, junto ao castelo de Almourol, onde o Tejo corria com caudais perto de 2.600 m³/s.
O município disponibiliza à população refeições quentes, banhos, pontos para carregar telemóveis no pavilhão desportivo e armazenamento de alimentos em arcas congeladoras na antiga cantina escolar, enquanto acompanha a subida do Tejo e mantém o concelho em duplo alerta.
Maria Olívia, de 81 anos, encara estes quatro dias sem eletricidade com uma serenidade que surpreende. Sem luz em casa, disse à Lusa que aproveita a luz do dia para sair à rua e para “dar os bons dias aos vizinhos”, mantendo contacto com quem a rodeia e preservando o ritmo da vida quotidiana.
Apesar da impossibilidade de usar telemóveis ou televisão, consegue gerir o seu dia a dia com o fogão e o esquentador a gás, mostrando uma atitude prática e positiva perante a situação.
“Não posso queixar-me. Temos pão, batatas, azeite, gás para cozinhar. Há sempre algo que nos faz continuar. É preciso pensar positivo e olhar à volta, há quem esteja pior que nós”, explicou.
A maior preocupação, confessa, era conseguir manter os telemóveis carregados para conseguir falar com os filhos, que residem em Lisboa, tendo agradecido o apoio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal, que disponibilizam pontos para recarregar os aparelhos.
A Lusa encontrou também Mariana Duarte, de 28 anos, no Pavilhão Desportivo da Praia do Ribatejo, onde tinha aproveitado para tomar um banho quente e carregar o telemóvel, apoios que considerou “essenciais” para conseguir gerir o dia a dia durante estes quatro dias sem eletricidade.
Na sua casa, disse, todo o equipamento é elétrico, incluindo o fogão e o esquentador, e a falta de luz impede-a de cozinhar, tomar banho quente ou carregar aparelhos. Sem televisão para acompanhar o dia, acaba por se deitar mais cedo, sentindo o peso da interrupção da rotina quotidiana.
“Os banhos quentes e o carregamento do telemóvel aqui têm sido mesmo essenciais, sem isso seria muito mais difícil lidar com esta situação”, afirmou Mariana, destacando a importância dos apoios municipais para manter alguma normalidade.
À Lusa, o presidente da Câmara explicou que, além do apoio à população, a autarquia tem coordenado ações de solidariedade com outros concelhos do Médio Tejo mais afetados pela tempestade, como Ourém e Ferreira do Zêzere, disponibilizando, com o apoio da comunidade e de empresários locais, camiões com lonas, colchões e outros bens essenciais.
A proteção civil e os bombeiros mantêm-se no terreno, a cortar árvores caídas, desobstruir vias e verificar barreiras de aluimento, enquanto os serviços municipais monitorizam hora a hora a situação dos caudais do Tejo.
Desde o início da crise, a Câmara de Vila Nova da Barquinha, em colaboração com os Bombeiros Voluntários, Juntas de Freguesia, GNR e escuteiros, tem mantido equipas no terreno, em particular na freguesia da Praia do Ribatejo, para apoiar a população.
Até hoje, dezenas de moradores usufruíram de refeições quentes, banhos e pontos de carregamento de telemóveis, enquanto as equipas contactam famílias mais vulneráveis, acompanham as operações de restabelecimento de eletricidade e água e entregam bens essenciais.
Foram ainda disponibilizados geradores a instituições sociais, garantindo assistência direta e contínua aos afetados pela tempestade Kristin e pelas falhas no fornecimento de energia, destacou o autarca.
Além do apoio direto à população, a autarquia alargou a solidariedade a concelhos do Médio Tejo mais afetados, como Ourém e Ferreira do Zêzere, estando esta tarde Manuel Mourato a ultimar, sempre ao telemóvel, o envio de camiões de lonas, colchões e bens essenciais.
Hoje, sob um sol que brilhava sobre o concelho e lhe devolveu alguma normalidade, as crianças brincavam em espaços públicos parcialmente interditos, turistas observavam o castelo de Almourol a partir da margem, enquanto os habitantes acompanhavam, atentos, a subida gradual das águas, lembrando os benefícios das cheias para a agricultura, mas mantendo a precaução.
Ali, junto ao castelo, o presidente reforçou a vigilância constante sobre o Tejo, com atenção ao Cais de Tancos e à zona baixa da vila.
Embora o dia tenha sido de relativa tranquilidade, a previsão de chuva intensa a partir de domingo, que poderá provocar novas inundações, levou o autarca a renovar o apelo à população para evitar zonas de risco e contactar os serviços sempre que necessário.
Entre a preocupação e alguma normalidade que o sol devolveu hoje ao concelho, a resposta da comunidade mostra-se de serenidade e entreajuda, personificada no espírito de Maria Olívia: “Há sempre algo que nos faz continuar. É preciso pensar positivo e olhar à volta, há quem esteja pior que nós”.
Lusa