Opinião OS TEMPOS E OS ESPAÇOS DA PROVÍNCIA - Por Fernando de Almada
No último espaço falámos aqui no Jornal de Abrantes, sobre transformações que se deram (já se deram) no conceito de provinciano e em algumas das implicações que tal mudança tem.
Dissemos umas coisas, o leitor certamente entendeu outras, mas não havia volta a dar-lhe. A comunicação é assim, se formos rigorosos e precisos na análise do fenómeno comunicação.
Alguns poderão pensar que devia ser o contrário, quanto mais rigorosos e precisos formos mais ‘certinha’ (desculpem a expressão) será a mensagem. É uma forma grosseira (tosca, malfeita) de compreender o que é uma mensagem – uma mensagem para além do sinal (o que dizemos, ou escrevemos, ou as imagens que passa) é também uma intenção do emissor, de quem a transmite, e uma interpretação do receptor, de quem a acolhe.
Pouco a pouco a intenção do emissor e a interpretação dos receptores podem-se ir aproximando. Com o tempo e a partilha dos mesmos espaços a convivência pode permitir uma aproximação entre o emissor e os receptores das mensagens. E o entendimento mútuo pode ir melhorando. É o que procuramos fazer com as pessoas que chamamos de ‘próximas’.
Mas quem tem tempo e está disposto em partilhar os mesmos espaços até que o entendimento (mínimo) consiga acontecer? A maioria gosta é de dizer coisas, julga mesmo que é importante por isso. Poucos conseguem ouvir (quanto mais tentar interpretar…).
Nota – depois admiram-se que a maior solidão é no meio das multidões.
Correm em busca de ‘amigos’, ‘audiências’, ‘likes’, … sei lá o quê! Nem para quê!
Hoje é fácil (ou seja – há os meios para) conseguir milhões de contactos nestas relações. E se ficam felizes…! Façam lá as suas opções e (o que é certamente um pouco mais difícil) não se esqueçam de nos deixarem fazer as nossas.
É que hoje as pessoas (todos nós, os provincianos e os outros) ganharam autonomias e possibilidades de escolha que lhes permite seguir o seu caminho, sem que estejam dependentes das opções dos outros como até há bem pouco tempo acontecia.
Os equipamentos e instrumentos disponíveis permitem que cada um possa seguir o seu percurso, pois foi libertado de dependências que existiam ainda há bem pouco tempo. Nada de muito sofisticado ou esquisito – o computador, o telefone (móvel ou não), a máquina de lavar (roupa, loiça, etc.,) o aspirador, o automóvel, o frigorífico, a televisão, as redes de comunicação, a informação disponível, …milhares de coisas que nos rodeiam e envolvem. Podem prender-nos ou libertam-nos fadigas – depende de quem os usa.
Aquelas fotos que apareceram desgarradas no texto anterior sobre os provincianos queriam dizer, precisamente e rigorosamente (atenção que precisão e rigor são coisas diferentes, como podem ver no dicionário onde pode entrar só com um ‘click’), a mesma coisa. Isto é – há muitas hipóteses de escolha, com muitas possibilidades e características próprias, que nos levam por diferentes caminhos a diferentes objectivos.
Hoje, felizmente, há caminhos para (quase) todos os gostos. E pessoas também.
As possibilidades de escolha aumentaram em poucas dezenas de anos, brutalmente. A capacidade (bom gosto e bom senso) para escolher parece ter diminuído. Porque impõe-se ter tempo e espaço (de liberdade e para respirar) para podermos fazer as escolhas que nos agradem. E que nos sirvam. O que implica, evidentemente, saber também o que queremos (eventualmente, o mais difícil… pois exige o tempo e o espaço para o exercício da inteligência).
Einstein quando aprofundou os conceitos de tempo e de espaço (com experiencias de raciocínio que pode encontrar facilmente com um outro click) percebeu como estavam ligados no âmbito da Física e com isso mudou as nossas vidas, pois permitiu o aparecimento de muitas possibilidades e ‘brinquedos’. Cilck, click, click… e vai encontrar esses mundos e histórias no espaço informático… quantos quiser.
Os tempos e os espaços na província também mudaram. Profundamente. Mas as pessoas nem tanto – ou pelo menos a grande maioria ainda não o percebeu. É certamente mais fácil utilizar alguns gadgets (uma forma de ver os instrumentos e ferramentas que alteraram a nossa forma de vier) do que entender as possibilidades que nos oferecem e as mudanças que nos permitem.
A província permite-nos, também, todo um leque de escolhas se nos adaptarmos e adequarmos ao que está disponível. E se formas capazes de o ajustarmos ao que pretendermos fazer nas nossas vidas. Copiar o que nos vem da cidade não é, certamente, a melhor solução. Volte às imagens dos caminhos que acima apresentámos – o que funciona bem num deles funciona mal nos outros. Por isso são diferentes e servem funções distintas. Acarretam velocidades, intenções, meios de transporte, seguranças, custos, tempos, etc., próprios.
Ou então não estão bem ajustados.
Ora, na província, o ritmo de vida, os horários, a estrutura social e familiar, o nosso contacto com o quadro envolvente, a estrutura do dia, do mês e do ano, os sonhos realizáveis e os bloqueios que existem, os estilos de vida, as relações que temos e as que são difíceis, a organização da nossa vida, quase tudo, tem enquadramentos diferentes do que acontece nos grandes centros.
No entanto, hoje (há poucas dezenas de anos não era assim), podemos fazer praticamente as mesmas coisas na província ou na cidade. Mas de maneiras diferentes. A província é, muitas vezes, um contexto mais favorável para o que possamos fazer. Sobretudo as coisas importantes (os pequenos ‘faits divers’ do dia a dia são um outro caso – voltaremos a este tema quando tratarmos de situações concretas e das adaptações que exigem).
Embora não sejam evidentes as adaptações a fazer para ‘viver bem’ (o que quer que isto signifique para cada pessoa) seja na grande cidade ou na província, esta tem enormes vantagens pois está menos viciada e menos bloqueada.
A ‘província’ está ainda mais perto do futuro como mais tarde iremos ver. Ora é do futuro hoje que estamos a falar. Um futuro com um homem menos preso Preso aos pequenos problemas, condicionamentos, hábitos, vícios, bloqueios, etc., que encontramos (ainda) nas grandes cidades. Porque as cidades cresceram adaptando-se e ajustando-se ao mundo de ontem.
Ora hoje, e ainda mais amanhã, o mundo é, sem dúvida, diferente daquilo que ontem foi.
Procurar agradar a gregos e a troianos foi uma coisa que só a Helena (de Tróia, claro) conseguiu – e vejam o resultado que teve. A destruição de Tróia.
O diálogo com outras pessoas que procuram encontrar soluções para problemas semelhantes é, sem dúvida, desejável. Por isso deixamos em seguida um contacto para conversarmos: euumprovinciano@gmail. com
Ver para crer? Ou – Escolhemos a forma como queremos ser enganados?
Ver não é registar! É interpretar (decifrar, descodificar).
Na província vemos de outra forma, pois o tempo e o espaço são outros? Ou limitamo-nos a imitar o que vêm os urbanos? Isto não é uma espécie de ‘Lago do campo Grande’ (Lisboa). É o Rio Tejo.
Fernando de Almada - investigador, professor universitário: Investiga, nomeadamente, “disfuncionalidades” – ou seja, há coisas que, aparentemente, têm tudo para funcionar …e não funcionam!
NÓS, OS PROVINCIANOS - reflexões, análises, sugestões ao início de cada mês em www.jornaldeabrantes.pt