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Alunos de Mouriscas mantêm a tradição de ir apanhar a Espiga (C/ÁUDIO e FOTOS)

26/05/2022 às 14:44
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É um dia com muita tradição em Portugal. O Dia da Espiga já foi considerado “o dia mais santo do ano” e até já foi feriado. Por outro lado, já foi um dia em que não se devia trabalhar e que as pessoas partiam num passeio matinal pelos campos para colherem espigas e depois fazerem um ramo que incluía também flores silvestres como papoilas ou malmequeres, raminhos de oliveira, de alecrim (ou rosmaninho) e de videira.

E por forma a manter estas tradições as escolas, principalmente do primeiro ciclo, fazem passeios pelos campos para que as crianças possam cumprir o “ritual” de ir apanhar a espiga. De fazer o ramo com as várias plantas para poderem levar para casa.

Foi isso que aconteceu na Escola do Primeiro Ciclo de Mouriscas. Os alunos, com os professores, Isabel Coelho e Paulo Rito, e auxiliares foram apanhar a espiga.

Não é difícil, em Mouriscas, encontrar grande parte das plantas que compõem o ramo. Mais difícil é encontrar as espigas de trigo, porque não há searas ou plantações de cereais. Mas não havendo trigo há sempre, numa zona campestre, qualquer outra planta que tenha espiga.

E as crianças não esquecem aquilo que os professores explicaram na sala de aula.

Primeiro o significado do dia com a célebre frase “da Páscoa à Ascensão 40 dias vão” com a religiosidade que leva a dizer “é o dia em que Jesus foi para o Céu”.

Depois vem então a corrida pelos caminhos em busca dos malmequeres, das papoilas, este ano mais difíceis de ver “porque está tudo muito seco”, como explicou a professora Isabel Coelho. Mesmo assim há que manter a tradição do dia e do país que tem mais de 30 municípios a assinalar o feriado municipal neste dia. Só no distrito de Santarém há oito concelhos que assinalam o feriado municipal na quinta-feira da Ascensão: Alcanena, Almeirim, Chamusca, Cartaxo, Benavente, Golegã, Torres Novas e Salvaterra de Magos.

Voltando a Mouriscas, entre a animação normal da criançada e as correrias, controladas pelos adultos, quando se encontram as espigas todos correm a colher uma. Melhor, a colher três “porque tem de ser número ímpar. Temos de ter três plantas” grita uma das alunas para a seguir um dos rapazes começar a correr a um dos campos “olha ali. Ali há papoilas.” Mas com alguma desilusão à mistura que estão já secas.

“Não se preocupem que perto da escola há muitas”, diz o professor Paulo Rito que acrescenta logo de seguida “olhe aqui os ramos de Oliveira”. Na azáfama que todos têm para “apanhar” as plantas a professora Isabel chama-os à atenção: “Das oliveiras só apanhamos os ramos de baixo [conhecidos como ramos ladrões]”. E quando um dos miúdos pergunta porquê a professora explica “é que os de cima são os que têm azeitona e nós não queremos estragar a azeitona.” Resposta simples e convincente porque não há mais nenhuma pergunta. Há sim uma corrida para uma zona de videiras bravias, onde todos podem “colher a alegria”.

Alguns dos alunos levam uma “cábula” onde constam todas as plantas que devem colher e qual o seu significado. “Falta o rosmaninho”, diz em tom mais tristonho uma das alunas. E quando o professor diz que “rosmaninho temos na horta da escola. E alecrim também temos a caminho da escola”. O rosto muda rapidamente para um sorriso contagiante.

E à pergunta “e para que serve o raminho do dia da espiga” a resposta sai em coro “é para levarmos para casa, para pormos atrás da porta até ao próximo ano”.

Plantas colhidas é tempo de voltar à sala de aula para compor o “raminho da espiga” que depois vão levar para casa, para oferecer aos pais e, com toda a certeza, que ninguém os vai calar até explicarem tudo o que aprenderam neste dia.

“Quem tem trigo de Ascensão, todo ano terá pão”

Por ter uma ligação com a Natureza, há que pense que este costume está relacionado com antigas tradições pagãs associadas às festas da deusa Flora que aconteciam por esta altura. Com a chegada do Cristianismo, e tendo em conta as datas de celebração da Páscoa, em Portugal este dia foi associado à Festa da Ascensão, celebrada 40 dias após da Páscoa.
Este é já um ditado antigo que acompanha o Ramo da Espiga, em que cada planta está associada a um significado:

As espigas representam o pão, como a base do sustento da família, e a fecundidade.

A papoila significa amor, vida.

O malmequer simboliza a riqueza e prosperidade.

A presença da oliveira significa Paz e a Luz Divina.

O alecrim representa a saúde, força e resiliência.

A videira simboliza o vinho e a alegria.

Dizem os costumes e tradições do povo que o ramo deve ser colocado atrás da porta de entrada de casa e apenas deve ser substituído no ano seguinte, por um ramo novo, como símbolo de sorte e prosperidade do lar.

E a tradição ainda pode ser o que era, se continuarmos a reviver todos os anos a Quinta-feira da Espiga.

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