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Sociedade

Aniversário: Tudo muda, o JA continua

10/05/2017 às 00:00
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Durante milénios, não existiam jornais. As notícias eram dadas por carta, por arautos e por viajantes, entre outros. Gutenberg (1398-1468), ao criar os tipos móveis, possibilitou a imprensa e, desse modo, os jornais impressos.

O primeiro jornal português foi a “Gazeta em que se relatam as novas todas, que houve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de Novembro de 1641, com todas as licenças necessárias”. Tinha como função dar notícias da guerra com Espanha e consolidar a monarquia restaurada com D. João IV.

Em 1884 surgem em Abrantes um primeiro “Jornal de Abrantes”, que acabaria por morrer, e o “Correio de Abrantes”. Em maio de 1900 surge um segundo “Jornal de Abrantes”, este que faz agora 117 anos. Nos fins do séc. XIX e inícios do XX, a função dos jornais era sobretudo ideológica, fazer passar a mensagem dos blocos políticos, primeiro entre republicanos e monárquicos, depois entre as fações republicanas.

Mas o jornal depende também muito da tecnologia disponível. A partir de Gutenberg, dominou a caixa de tipos (ou letras em metal) que o tipógrafo juntava numa régua ou componedor (de compor).

Nos finais do séc. XIX, a composição em linotype faz uma revolução. A nova máquina, a partir de 1886 (Ottmar Mergenthaler) era, no fundo, uma máquina de escrever com uma fundição: o linotypista escrevia uma letra e a máquina fundia o tipo e as letras iam saindo dali para a mesa de composição. O “Correio de Abrantes” usava esta tecnologia creio que até aos últimos dias.

Mais tarde, a impressão em off set fez nova revolução. Derivada da litografia, consistia numa chapa que servia de matriz pela qual passava um rolo com tinta. Em Abrantes foi a Escola D. Miguel de Almeida, nos anos 70 do séc. XX, a ter “uma off set” que possibilitou a multiplicação de pequenas publicações, muitas delas periódicas. A revista Ânimo (1979-1980) é um exemplo. Mas o próprio JA começou publicar as páginas interiores em off set, que mandava imprimir fora.

Naqueles tempos, os jornais eram feitos a partir de textos manuscritos, que seguiam acompanhados de um esquema página por página para uma tipografia algures, talvez em Lisboa. Quando o jornal chegava é que se via se as coisas tinham ficado como tinham sido pensadas.

Entretanto, tudo (?) mudou. O computador e as comunicações rápidas vieram alterar a composição e o acompanhamento. Hoje, os originais são escritos já no seu texto definitivo, que é enviado por mail para o paginador, que tanto pode estar na mesa ao lado como no outro lado do mundo. O paginador utiliza um programa de paginação: pega no texto recebido e coloca-o na página pré-desenhada, fazendo os acabamentos. O resultado volta pela internet para revisão final, é corrigido e enviado pela Internet para a tipografia, onde é impresso em tecnologia laser ou similar. O JA é paginado em Leiria e impresso no Porto.

Entretanto, o ambiente à volta do jornal também mudou muito. Quando o JA começou, em 1900, não havia rádio nem televisão. Um jornal era um canal de comunicação sem alternativa, a não ser outro jornal. O aparecimento da rádio e da televisão veio mudar tudo. Hoje… não é preciso explicar, há milhentos canais que debitam informação a todo o momento. O poder de um jornal é muito menor. A sua função não pode ser a mesma. Então, qual deve ser?

O JA que hoje nos chega às mãos, tem 117 anos e leva já o bonito número 5555. Apesar de tudo, resistiu às mudanças, isto é, mudou com elas – Parabéns! – e merece mesmo o reconhecimento do Presidente da República. Mas isso não o dispensa de ter de se defrontar com múltiplas interrogações. Que lugar deve ou pode ocupar num sistema ultra complexo de informação na região que cobre? Quanto deve ter de notícias, talvez já divulgadas noutros meios, por exemplo a rádio da casa, e quanto… de quê? Que pode levar o potencial leitor a pegar no jornal e a lê-lo? Que pode oferecer aos anunciantes que optem por este meio de divulgar as suas mensagens? Como pode continuar a custear as despesas sempre crescentes num mundo em que a informação é abundante e gratuita? Como pode casar a edição em papel com a internet?

São múltiplos os desafios de quem tem, hoje, a responsabilidade de um jornal. Eu não queria estar na pele da nossa jovem diretora, Joana Margarida Carvalho, que tem que de articular jornal, rádio e internet, todos os dias e todos os meses.

Alves Jana