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17 ago 2022
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Sociedade

Agricultura e ambiente no centro das inquietações entre o Tejo e Castelo de Bode

1/07/2022 às 19:36
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Poder local, ambientalistas e agricultores mostram-se preocupados com os efeitos da seca e com os baixos níveis de água no Tejo e na albufeira de Castelo de Bode, que não estão, ainda assim, a impedir a chegada de turistas.

Em declarações à Lusa, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha (distrito de Santarém), Fernando Freire, disse que “a falta de água é recorrente nos últimos anos no rio Tejo”, mas sublinhou que “este ano as barragens a montante, com especial enfoque em Alcântara e Castelo de Bode, atingem níveis de captações mínimas, o que gera inquietação a jusante” dos planos de água.

“Vila Nova da Barquinha sente de sobremaneira a falta de recursos hídricos, quer pelo turismo - com a impossibilidade do uso de embarcações no cais de Tancos, tendo que usar a única alternativa para a visita ao Castelo de Almourol, o cais junto do castelo -, quer com os danos evidentes na fauna, com escassez de peixe, e na flora, com a não renovação de arvoredo no leito do rio”, referiu o autarca.

Por outro lado, acrescentou, “a falta de água tem reflexos diretos na agricultura e na questão do combate aos incêndios florestais em todos os concelhos banhados pelo Tejo”, pelo que, defendeu, “importa passar a medidas imediatas políticas que passem, em concreto, pela retenção a montante durante o inverno para regularizar um caudal mínimo ecológico e sustentável, como é exemplo a construção da prometida barragem do Alvito”.

Luís Damas, da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação (distrito de Santarém), relatou que, “com a falta de chuva e as baixas disponibilidades hídricas, também ao nível dos lençóis freáticos, algumas culturas estão a entrar em stress, com alguns sistemas de rega das explorações já em baixo e furos de captação subterrânea a colapsar”. Por isso, assumiu “preocupação” entre os empresários agrícolas.

A situação, afirmou, afeta todo o setor agrícola e florestal: “pode pôr em causa” olival, a cultura de milho, sobreiros e culturas permanentes como as das nogueiras, amendoeiras e macieiras”, mas também atinge as pastagens que alimentam o gado, atualmente muito secas, e gera riscos ao nível dos incêndios rurais.

“Vamos acompanhando, fazendo uma gestão criteriosa da água, com alguns agricultores a usar métodos de rega gota a gota, mas não sei como é que vamos resolver este assunto no futuro. Se isto continuar, os agricultores têm de se habituar a viver com menos água, mas não é de um dia para o outro que se transforma a exploração agrícola assim, tem de haver uma adaptação climática, repensar opções pessoais e começar a mudar alguns hábitos”, afirmou.

Por seu turno, os empresários turísticos que operam em Castelo de Bode (rio Zêzere) estão “satisfeitos com a cota da albufeira e com as taxas de ocupação” da hotelaria, que atribuem às “medidas atempadas implementadas pelo Governo”, apesar de as águas na albufeira apresentarem hoje um nível bastante abaixo do que era habitual para esta altura do ano.

“Diria que o plano de água neste momento está equivalente a setembro, antes das chuvas. De qualquer modo, temos água suficiente para o verão e para uma prática de turismo porque, felizmente, houve a intervenção a tempo de parar a produção de energia e isso foi fundamental para que neste momento o Castelo de Bode esteja com uma quota de 60% ou 70%, que é água suficiente para um bom ano balnear”, disse à Lusa o presidente da Associação dos Empresários de Turismo do Castelo de Bode (AETCB).

Segundo Jorge Rodrigues, “o atual plano de água não inviabiliza a prática de atividades náuticas e de lazer” e os empresários deram conta de que as taxas de ocupação na hotelaria nos meses de abril, maio e junho foram equivalentes a anos anteriores, na ordem dos 50%. Regista-se um “aumento de turistas do mercado externo” e há “expectativa de concluir esta época com uma taxa de 80%, em geral”.

A albufeira de Castelo de Bode estende-se ao longo de 60 quilómetros, atravessa os concelhos de Abrantes, Ferreira do Zêzere, Figueiró dos Vinhos, Sardoal, Sertã, Tomar e Vila de Rei (integrando assim os distritos de Santarém, Leiria e Castelo Branco), e abastece uma vasta região até Lisboa, abrangendo cerca de três milhões de consumidores.

Segundo os dados do Sistema Nacional de Monitorização de Recursos Hídricos (SNIRH), que a Lusa consultou na quinta-feira, 30 de junho, a cota de água estava nos 111,66 metros, valores que se têm mantido mais ou menos estabilizados desde abril deste ano, com a cota a subir cerca de 5,5 metros desde fevereiro, quando registava 106,12 metros.

Há um ano, em 30 de junho de 2021, a cota da albufeira de Castelo do Bode estava nos 117,83 metros.

Desde setembro de 1984, ano desde que há registos e em que foram assinalados 111,93 metros, a cota mais alta na albufeira foi atingida em 30 de abril de 1985, com um encaixe de 121,64 metros, e a mais baixa em setembro de 1986, com 98,74 metros.

No entanto, para o dirigente do movimento ambientalista proTEJO, “o problema da seca não pode ser avaliado pela cota das barragens”, já que “as secas e as cheias são cíclicas e um fenómeno climatérico, ao passo que as barragens são reguladas”.

Paulo Constantino lembrou à Lusa que este é um período de seca generalizado no país. A situação, sublinhou, “já esteve mais gravosa”, mas vai prolongar-se durante todo o verão, “gerada pelas alterações climáticas, que têm vindo a agravar o clima e as temperaturas e a estender os períodos em que há menos precipitação”.

O ambientalista, que afirmou ser “contra os transvazes ou novas barragens”, indicou a “criação de corredores ecológicos, as florestas autóctones e a aposta na biodiversidade” para resolver o “problema de fundo” e “mitigar as alterações climáticas”.

Por outro lado, concluiu, “é fundamental dar ao Tejo caudais ecológicos para assegurar que são conservados os ecossistemas”, bem como “regular os caudais mínimos, para serviço às populações e também para as atividades económicas, nomeadamente a agricultura, pesca e turismo de natureza, e também os caudais máximos, para evitar que haja descargas exageradas de água em determinados períodos, simplesmente com o objetivo de produção de energia hidroelétrica”.

Na semana passada, a presidente da Comissão Proteção Civil de Santarém, da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Câmara de Tomar, Anabela Freitas, disse à Lusa que o nível de água em Castelo de Bode não põe em causa o abastecimento de água às populações nem aos meios de combate a incêndios.

Lusa