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Sociedade

A invasão das vespas asiáticas

5/10/2019 às 00:00
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Na aldeia de Portela, freguesia de Fontes, a poucos metros da albufeira do Castelo de Bode, João Maria Alves começou a ver as vespas negras à volta da sua casa. Nos finais de agosto este homem, conhecedor dos ofícios da apicultura, viu que andavam ali em quantidades elevadas. João Alves vai para o quintal, onde tem um arbusto florido alto. “Está a ver aqui? São estas. São das velhacas”. E, ao mesmo tempo, aponta para as vespas pretas que andam nas flores daquele arbusto. Não se vê uma abelha ou uma vespa das que nós conhecemos. Só a espaços aparece, pelo meio das outras, uma mais amarela. “Esta não é das velhacas. Esta é das que nós temos por cá. Olhe, viam-se pouco”, explica João Alves. “Venham. Não tenham medo. Elas não fazem mal. Ando aqui e não tenho problemas. Olhe, até as apanho aqui com este camaroeiro”, diz o homem, ao mesmo tempo, que agarra naquele objeto de rede. E de repente começa a “caçar” uma aqui e outra ali. Apanha-as com o camaroeiro e, depois, tem de as pisar. “Não são fáceis de matar”, garante, ao mesmo tempo que apanha uma, já morta, para nos mostrar como é a velutina. “São todas pretas, só têm uma lista amarela no rabo. Mas sabe como se conhecem melhor? Têm as patas amarelas. Basta olhar para as patas. Não tenha medo. Quer levar uma?” João Alves convive com as vespas asiáticas no quintal. Matá-las até poderia ser um passatempo, mas diz que não tem tempo para esse labor. “Quando saíam daqui vi que iam para aquele lado...”, e aponta para uma horta do outro lado da estrada. Ali, numa laranjeira bem alta, lá no topo, está o ninho. Uma bola castanha que só se identifica quando percebemos que ele está lá. A olho nu, podemos olhar e não o vemos. Ou pelo menos não o identificamos facilmente. João Alves viu o ninho e ligou para a Proteção Civil de Abrantes “como dizem que deve ser feito. Eu podia tratar dele. Tenho um fato do tempo que tinha abelhas”, vincou. “E ali, para os lados do Maxial, deve haver outro ninho”, explica, com a convicção de quem tem a certeza. “É que as vespas tanto saem em direção à laranjeira como para o lado oposto, em direção ao Maxial”, indica o homem, sempre com uma boa disposição notável.

Um ninho para exterminar na Portela (Fontes)

João Alves recebeu na sua casa a coordenadora municipal da Proteção Civil de Abrantes, Maria Inês Mariano, e Mário Lourenço, o exterminador de ninhos de vespa. Ao chegar à horta, João Alves aponta para a laranjeira: “Lá está ele. Ali em cima”.

Mário Lourenço deu a volta à laranjeira para observar aquele ninho. Antes de vestir o fato de proteção revela a forma como o vai exterminar. “Isto tem de ser com veneno. Vou deixar lá dentro o produto para elas absorverem. Vão acabar por morrer todas. E se uma dose não resultar, daqui a dois ou três dias repetimos o processo e este fica eliminado”, garante. Quando questionado sobre o método, o “exterminador”, natural de Mação, revela que se destruir ou queimar o ninho todas as que estão fora “podem ser potenciais rainhas e fazer novos ninhos”. Ou seja, uma exterminação mal feita pode propagar a espécie, em vez de a eliminar. Neste caso tudo correu de forma normal e rápida. Cinco minutos bastaram para fazer o serviço. Mário Lourenço embebeu uma guita no veneno e usando uma cana de pesca, das diretas, esticou-a até ao ninho. Depois, com mestria de quem sabe o que faz, escolheu um dos respiradores (o ninho tem a entrada das vespas e respiradores) e deixou lá o produto. Mário observou os voos das velutinas e confirma o que o senhor João já tinha dito. “Há para ali [aponta para os lados do Maxial] outro ninho. Mas pode ser longe, pode estar a dois quilómetros”, garante. Já a responsável da Proteção Civil confirma que o número de casos tem vindo a aumentar. “Pedimos é para que nos informem quando detetarem ninhos. Vamos lá ver e tratamos dele. O anterior a este foi em Bemposta. E temos mais casos reportados”, salientou a coordenadora da Proteção Civil de Abrantes. Marias Inês Mariano espera que quem localize os ninhos de vespa informe os serviços de Proteção Civil e que não tentem destruí-los por meios próprios. Numa semana eliminaram ninhos em Abrantes, Tramagal , Água das Casas e Pego. E mais denúncias vão surgindo dia a dia no serviço.

Vespa asiática chegou a Portugal em 2011

Segundo os dados do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), a vespa velutina é uma espécie não indígena e é predadora das abelhas-europeias, produtoras de mel. É originária das regiões tropicais e subtropicais do norte da Índia, leste da China, Indochina e da Indonésia. A chegada à Europa terá ocorrido em 2004, em França. A sua presença foi confirmada em Espanha, Bélgica, Portugal e Itália. Os especialistas dizem que a sua progressão na Europa tem sido de 100 quilómetros por ano. Em Portugal os números indicam uma progressão de 70 a 80 quilómetros por ano.

Ainda segundo a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária a vespa velutina constrói ninhos de grande dimensão, em locais isolados e altos. Os especialistas indicam ainda que preferem locais com água ou com outras colmeias nas proximidades. Esta espécie distingue-se da vespa crabro (a europeia) pela coloração do abdómen (mais escuro e com uma lista amarela) e pelas patas (amarelas, no caso das asiáticas). A vespa velutina é uma espécie carnívora e predadora das abelhas, mata-as mesmos nas suas colmeias.

Devem as pessoas fugir da vespa asiática?

Sobre a vespa asiática há muita informação, mas também muita informação errada ou alarmista. A vespa asiática, diz a Proteção Civil, é tão perigosa para os humanos como as outras. Ou seja, quem for alérgico deve ter atenção como tem com as outras. Para os cidadãos que não são alérgicos a picada pode, simplesmente, ser mais dolorosa.

Quanto à ideia de que esta vespa mata pessoas não é bem assim. Causará problemas graves aos alérgicos que, por isso, devem trazer consigo a medicação para evitar o choque anafilático (reação alérgica que provoca problemas na respiração e que, se não for rapidamente tratado, pode levar à morte).

Chamam-lhe é vespa assassina porque mata as abelhas-de-mel e outros insetos. Dizem os responsáveis que a abelha-europeia ou crabro até pode ser mais agressiva do que a asiática. Agora se sentirem o ninho em perigo podem atacar em enxame e fazer perseguições de algumas centenas de metros.

 


Abrantes com 50 ninhos destruídos este ano

Se a vespa velutina entrou pelo norte do território nacional em 2011, desde o ano passado que tem sido avistada na região centro. Este ano foram identificados dezenas de ninhos desta vespa na região do Médio Tejo. E em Abrantes, concretamente desde o início do ano até ao final de agosto, já tinham sido destruídos mais de 50 ninhos. Mesmo na cidade foram destruídos, pelo menos, dois ninhos, um junto ao café do Francês e outro o bairro Catroga e Gaio, o que mostra como a vespa se pode multiplicar e adaptar. Ou seja, não faz só ninhos em árvores ou arbustos.

Quem detetar um ninho, normalmente construídos em locais muito altos, deverá imediatamente contactar a Proteção Civil Municipal ou outra autoridade indicando o local onde se encontra. Será o serviço de Proteção Civil de cada município que vai proceder ao extermínio do ninho.

Como eliminar os ninhos

Eliminar um ninho de vespa asiática não é apenas queimar o ninho. Algumas imagens na televisão têm mostrado os ninhos a ser queimados, mas segundo Mário Lourenço essa é uma fórmula errada. “Cada vespa que esteja fora do ninho (de dia ou de noite) quando se destrói pode, potencialmente, vir a ser rainha e a criar um novo ninho”. Deste modo, o responsável pela destruição de, pelo menos, meia centena de ninhos só no concelho de Abrantes explica que “o ninho é envenenado. E todas as vespas que estão ou venham a entrar no ninho morrem”. Também Maria Inês Mariano, responsável da Proteção Civil de Abrantes confirma que 48 horas depois da primeira intervenção com veneno é feita a observação para confirmar que o ninho já não tem atividade. Se, por acaso, ainda tiver vespas leva uma segunda dose. Mas a eficácia tem sido a regra. Depois de ser envenenado o ninho nunca mais volta a ter atividade e pode, então, ser destruído.


As armadilhas “caseiras”

À boa maneira portuguesa, e não só, proliferam formas engenhosas de caçar as abelhas de rondarem as plantas ou as flores. Mário Lourenço (na foto) mostra como com duas garrafas de plástico ou dois garrafões se pode fazer uma armadilha. E faz-se a reutilização dos plásticos. A atenção é que as garrafas devem ter tampa para evitar que as vespas saiam. Quanto ao líquido, o que elas procuram é proteína e açucar. Por isso as receitas variam.

João Alves, na Portela (Fontes) tem um cocktail que usa para por nas armadilhas: “Dou a receita, pois, aquilo é cá uma pomada. Um litro de vinho tinto, meio litro de Coca-Cola, meio quilo de açúcar amarelo, meio litro de vinho branco fervido com açúcar amarelo, até este derreter, e um cálice de vinho do porto. Aquilo é tão bom, tão bom” que as vespas entram e já não saem. Em Vila de Rei, por exemplo, foi a própria Câmara Municipal quem andou a espalhar estas armadilhas pelas árvores da vila. Mas atenção, a armadilha não seleciona os insetos. Apanha as asiáticas e as outras. A segunda nota que se deve ter é que quanto maior a quantidade de asiáticas, mais perto deve haver ninho.


Reportagem e fotos: Jerónimo Belo Jorge