Castelo Bode - 75 anos A construção da Barragem mudou território e aldeias (c/áudio)
A Central Hidroelétrica de Castelo do Bode começou a ser construída em 1946 e entrou em operação em 1951. Com a subida das águas, ficaram submersas casas, aldeias, azenhas e lagares, pontes entre as duas margens.
Só no concelho de Abrantes, no rio Zêzere, na Ribeira da Brunheta, ribeira do Souto ou ribeira da Ferraria, ficaram debaixo de água mais de 30 azenhas ou lagares que existiam nas encostas agrícolas do rio.
O historiador José Martinho Gaspar já escreveu muito sobre a albufeira e as aldeias do norte do concelho de Abrantes que mudaram quando a água começou a encher toda a bacia do Zêzere,
Quando se começou a falar na barragem, foi antes de 1946, ano em que começou a ser construída. Em 1950 começa o enchimento e depois, a 21 de janeiro de 1951, acontece a inauguração. Todos estes territórios, do norte do concelho de Abrantes, Tomar, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei e Sertã, eram apenas um vale encaixado com um rio lá no fundo. Um rio com pouca água no verão, com mais água no inverno. E com uma mão-cheia de ribeiras a fazerem ziguezagues até desaguarem no Zêzere. Aquelas encostas tinham muitas azenhas, muitos lagares para aproveitando as águas do rio e muita agricultura.
José Martinho Gaspar confirma que, por um lado tínhamos o rio propriamente dito, que corria com caudais muito diferentes de verão relativamente ao inverno, mas depois tínhamos também, e esse é um aspeto muito interessante, uma série de ribeiras nesta rede hidrográfica, nomeadamente aqui a norte do concelho de Abrantes e a norte do concelho de Sardoal, fazendo a separação do concelho de Vila de Rei através da Ribeira do Codes. “São de facto ribeiras muito significativas e que também tinham uma expressão importante nesses engenhos que existiam, de azenhas e lagares, muitíssimos, em quase todas as aldeias. Depois também uma série de terras que, junto do rio e junto destas ribeiras, eram as terras mais férteis, que eram aquelas terras que as pessoas denominavam ‘nateiros’. E esses terrenos beneficiavam das cheias que o inverno muitas vezes trazia, e das terras e areias mais férteis que as ribeiras ou o rio traziam para junto das suas margens. Eram interessantes sobretudo para a cultura do milho, por exemplo, terras bastante férteis, bem como para oliveiras, por exemplo. Por outro lado, havia algumas pequenas localidades nestas margens, no caso do concelho de Vila do Rei, por exemplo, há sete localidades que foram integralmente submersas pela albufeira. Não são localidades particularmente grandes, mas foi uma… é qualquer coisa que é significativa que estas aldeias ficarem submersas.”
Segundo o historiador “esta barragem acaba por se inscrever numa série de obras que são obras de infraestruturas, sobretudo do setor da energia, que são uma aposta a partir de 1946, 47, 48, ou seja, nós temos uma rede de barragens, quer no Mondego, quer no Zêzere. Em 51 é o Castelo de Bode, em 54 inaugura o Cabril e em 55 a Bouçã, as três barragens que fazem a cascata do Zêzere."
“Há muita proximidade e há uma aposta clara. É verdade que Oliveira Salazar, presidente do Conselho, era um rural, era um homem defensor das tradições e de manter o país fora daquilo que era uma certa industrialização que necessitava obviamente de energia elétrica. Mas a partir de meados dos anos 40, há uma forte pressão por parte de uma fação industrialista onde estão ministros, secretários de Estado, algumas figuras de monto até ligadas a algumas empresas industriais no país e estas barragens tinham necessariamente de andar. Depois até é com muita naturalidade que nos anos 50 surgem, por exemplo os planos de fomento que abrem espaço para o desenvolvimento industrial de outros setores e depois termos a possibilidade de dispormos desta energia que estas barragens hidroelétricas podiam fornecer.”
Segundo José Martinho Gaspar terá havido dúvidas em alguns locais no que diz respeito ao sítio onde efetivamente as águas da Albufeira podiam ou não podiam chegar. “Havia sempre ali algumas dúvidas e, houve inclusivamente alguns sítios, onde diziam que elas não chegariam e acabaram por chegar e outros sítios que chegariam e acabaram por não chegar. As pessoas mais idosas, quando falamos com elas, ainda recordam isso.”
Esta barragem diz tem um aspeto muito interessante porque acabou por provocar uma mudança significativa na vida de muitas pessoas nesta região, e nos hábitos e relações que mantinham entre si, assim como nas ligações que existiam entre as aldeias.

“No caso de todo o norte do concelho de Abrantes, onde muitas vezes havia, até por dificuldades das próprias vias de comunicação, uma proximidade maior com o concelho de Vila de Rei, onde as pessoas iam às feiras, aos mercados, à missa e por aí fora. Depois veem esta barreira acabar por se impor. O mesmo acontece com uma sede freguesia como é a aldeia do Souto. As pessoas hoje olham para aquilo que é o Souto e veem como uma aldeia ‘quase morta’, mas que tinha uma dinâmica sob o ponto de vista comercial e sob o ponto de vista do número de habitantes. Se nós olharmos para o Souto nos anos 50, fora da sede do concelho de Abrantes era das aldeias mais povoadas. A Barragem de Castelo de Bode corta uma ligação que se fazia para o concelho de Tomar. Acabamos por ter uma aldeia que vai definhar, a partir do momento em que só vai ali quem tem que ir por necessidade e já não é um local de passagem quando se passa a fazer essa passagem pela barragem de Castelo de Bode.”
O historiador abrantino revelou ainda que “houve muitas pessoas que nesta altura, pelos anos 50, 60, mas até ao final dos anos 50, que saíram para o Brasil, para a Argentina, para outras zonas do país, como a Azambuja, como Ponte de Sor. Pouco a pouco muitas pessoas acabaram por ir saindo porque perceberam que as propriedades que aqui tinham já não eram suficientes para fazerem a vida, que assentava na produção agrícola que elas tinham. Por outro lado, também é curioso ver, e eu li algumas coisas escritas nomeadamente por uma família da Matagosa, que é a família Priori, que eram pessoas um pouco à frente do seu tempo, e que dentro da realidade do regime eram oficiais da armada, do exército, mas que tinham uma visão de desenvolvimento turístico para o norte do concelho. Viam e olhavam para o futuro daquela região como vindo a beneficiar do que podia ser a subida das águas de Castelo de Bode.”
O enchimento, em 1950, foi diferente, por exemplo, do Alqueva. No Castelo de Bode, diz José Martinho Gaspar, não houve limpeza dos terrenos, desmatação ou demolição de edifícios. A água subiu e deixou tudo submerso.
“A água vem por aí acima, grande parte da vegetação que existia, das árvores que existiam, a exceção de oliveiras que foram arrancadas para transplantar para outras regiões, acabou por subir. Eu, por exemplo, lembro-me, já nos anos 80, quando se fizeram as obras de captação de água para consumo humano para Lisboa, como nós vimos estas árvores que ficaram debaixo das águas da albufeira. Com esta subida e descida das águas é que elas acabaram por apodrecer.”
José Martinho Gaspar defende que deveria haver atividades sobre esta efeméride, 75 anos da inauguração, porque afinal de contas “estamos a falar de uma infraestrutura que foi significativa e que continua a ser significativa.”
E acrescentou que “se há uma infraestrutura que tem um peso numa região, essa é com certeza a barragem do Castelo de Bode e aquilo que ela significou, aquilo que ela transformou e aquilo que ela representou para essa região e para o próprio país durante estes 75 anos. Com certeza vai continuar a representar e, por essa via, é óbvio que merece toda a nossa atenção.”
E como homem do norte do concelho de Abrantes, conclui a dizer que “do ponto de vista pessoal, se calhar a barragem foi das coisas mais importantes e que tornou a minha infância mais feliz, como terá tornado a muitos outros que nasceram nas proximidades de algo que foi o Castelo de Bode. “Efetivamente nascer num sítio daquele espetacular onde nós podíamos passar verões como nenhum dos outros passavam noutras localidades por ali perto, foi uma coisa verdadeiramente fantástica.”

José Martinho Gaspar