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Entrevista JA

Zahara: “Uma enorme responsabilidade” e “um orgulho brutal”

23/01/2023 às 10:48
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A revista de História Local, Zahara, atingiu a marca das 40 edições numa periodicidade semestral ininterrupta. Dedicada à História, Arqueologia, Etnografia e ciências afins, nasceu em 2003, é da responsabilidade do CEHLA - Palha de Abrantes e direciona-se para os concelhos de Abrantes, Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha. Sob a direção de José Martinho Gaspar, foi sobre a Zahara e a atividade do CEHLA que falámos.

Por Patrícia Seixas

 

Há 20 anos, o que vos levou a criarem o CEHLA - Centro de Estudos de História Local de Abrantes? Que necessidade sentiram haver na região?

Abrantes, há que dizê-lo, tem um interessante percurso cívico na defesa da sua História e do seu Património. Se pensarmos naquele que foi o Museu Regional D. Lopo de Almeida, criado em 1921, se atentarmos na ação de investigadores como Diogo Oleiro ou Maria Amélia Horta Pereira, percebemos claramente que a valorização do passado é uma marca que vem de longe. Uma monografia como a “Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes”, de Manuel António Morato e João Valentim da Fonseca Mota, é um legado fundamental em termos de abordagem do passado abrantino. No início dos anos 80, existiu uma associação de defesa do Património, denominada ADEPRA, com uma ação interessantíssima, nomeadamente com a publicação dos seus Cadernos, que revelou entusiasmo e saber fazer neste domínio.

Também no pós-25 de Abril, a forma como alguns entusiastas, com o apoio do então presidente da Câmara, José “Bioucas”, salvaram um rico espólio documental e criaram condições para a fundação do Arquivo Histórico Municipal, é revelador da dinâmica e interesse em torno destes temas. E chegámos ao início do século XXI com múltiplas publicações locais neste domínio, entre as quais relevo as de Eduardo Campos, muitas delas, como os trabalhos ao nível da toponímia, imprensa e cronologias, constituem ferramentas que não deixam indiferente quem se interessa por estas temáticas. Em termos de desafio para este projeto que viria a ser o CEHLA, ele terá vindo de conversas entre o Alves Jana e o Eduardo Campos e da integração, subsequente, de quem quis fazer parte. Todavia, desde muito cedo, a perspetiva foi a de maior abrangência territorial, não contemplando apenas o concelho de Abrantes, mas também Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e, mais tarde, Vila Nova da Barquinha. Só assim fazia e faz sentido, do nosso ponto de vista.

 

Começaram com quatro (José Martinho Gaspar, Eduardo Campos, Alves Jana e Carlos Vieira Dias) a quem se foram juntando muitos mais, tudo personalidades ligadas à História. Como se deu este processo? As pessoas aderiram rapidamente ou foi gradual?

Na realidade, como já disse, começaram dois e depois, logo nas primeiras reuniões, muitos outros se juntaram. Recordo-me que nessas reuniões que fizemos na Casa Carneiro, ao longo de 2002, participaram, para além de Alves Jana e Eduardo Campos, eu próprio, Candeias da Silva, Teresa Aparício, Carlos Grácio, Carlos Vieira Dias, Luís Pombo, Francisco Valente, Ana Paula Agudo, Ana Paredes Cardoso, Maria João Rosa e Armando Borges, então presidente da Direção da Palha de Abrantes.

O quarteto referido diz respeito àqueles que, em novembro de 2002, estiveram na conferência de imprensa, realizada na extinta livraria Contracapa, no Centro Coordenador de Transportes a apresentar o projeto. Já tínhamos definido o que queríamos fazer e demo-lo a conhecer ao público e, ao mesmo tempo, aproveitámos para convidar para colaboração, nomeadamente na revista. E aquilo que pensámos, desde logo, e contámos nessa conferência de imprensa, foi a realização de uma edição de Jornadas de História Local, anualmente, a publicação de uma revista, semestralmente, e a concretização de “Passeios com História” pela região.

Entretanto, como conhecíamos algumas pessoas que se interessavam e trabalhavam estas temáticas nos concelhos que nos propúnhamos abranger, chamámo-los e tudo foi alastrando com naturalidade num processo de mancha de óleo. Apesar de haver um núcleo que participa mais assiduamente nas reuniões, os membros do CEHLA, pela forma contínua como, durante 20 anos, participaram no projeto, são muitos mais. O que seria o CEHLA sem José António Correia Pais, Mário Jorge Sousa, Paulo Sousa, João Jerónimo, Rui Moleiro, António Matias Coelho, Jaime Marques da Silva, António Manuel Martins Silva, Fernando Freire, Luiz Oosterbeek, Sara Cura e o Museu de Mação? E que ninguém se sinta melindrado, porque no editorial do n.º 40 da “Zahara” identifico as centenas que fazem parte.

 

Hoje em dia, há colaboradores ligados a outras áreas, não só à História. Foram aparecendo porquê?

Esse foi um objetivo que se definiu desde o arranque e será aquilo que mais contribuiu para esta longevidade. O CEHLA é um projeto que olha para o passado, mais longínquo ou mais recente, mas nunca teve intenção de se manter exclusivamente no domínio da investigação histórica mais académica. Sem comprometer o rigor, no CEHLA abordam-se temáticas da Antiguidade, da Idade Média ou Moderna, mas também aspetos etnográficos mais recentes, do século XX, usam-se os documentos que estão nos arquivos, mas as pessoas também são os arquivos. Deste modo ganhou-se muito, conseguiu-se um público, face à diversidade de abordagens, de temáticas e de tempos. Por outro lado, mesmo os não “encartados” na escrita da História, sentiram que aquilo que tinham para contar cabia aqui.

 

E entretanto, como surgiu a Zahara?

A ideia de ter uma revista surgiu desde muito cedo. Escolheu-se o título “Zahara” pois pensou-se que tendo uma ligação a Abrantes, onde estamos sediados, é também lendário e simbólico para todo este território, que esteve ocupado pelos muçulmanos e se libertou no século XII, num processo conjunto, que fez parte da construção de um país. Fiquei com a incumbência de coordenar a revista, isto é, de ser o seu diretor. Foi uma enorme responsabilidade, mas foi também um projeto que me deu um gozo brutal, que constituiu uma aprendizagem incrível, não apenas do mundo da edição, mas sobretudo do contacto com gente boa, altruísta, disponível para trabalhar para a comunidade, naquele que se assume também como um voluntariado social, por vezes com pouca visibilidade. Para além dos colaboradores, que publicaram imagens e textos, deixo uma palavra para o Paulo Passos, autor do design inicial do miolo da revista, para o Pedro Falcão, que concebeu a capa quase até ao n.º 30, e para o Nuno Mil-Homens que paginou a publicação nos primeiros anos.

A mim, competiu-me coordenar este projeto, enquanto elo de ligação entre todos os envolvidos, vendo-me obrigado a aprender a fazer muitas coisas que nunca equacionara. Foi muito gratificante. Quis, desde sempre, que este não fosse um projeto editorial fugaz, mas sim consistente. A maneira como o pensámos, a capacidade que tivemos para envolver, tudo isso contribuiu para essa consistência, mas a responsabilidade, o “vestir a camisola”, determinou que chegássemos aqui. Em várias ocasiões foi necessário um “forcing” de que poucos se aperceberam, algumas vezes peguei no meu carro enquanto decorriam as Jornadas de História Local e fui à gráfica buscar 50 exemplares, porque quando me comprometo as coisas acontecem.

No que à “Zahara” diz respeito, devemos ter uma palavra de gratidão para a Teresa Aparício, não apenas enquanto colaboradora, mas também como divulgadora e distribuidora, pois se não tivermos leitores não faz sentido publicar uma revista.

 

A capa da primeira Zahara

E a parceria com a Palha de Abrantes?

O CEHLA nasceu na Palha de Abrantes. Se temos uma associação que trabalha no domínio da cultura, regionalmente, integrarmo-nos nela surge com naturalidade, pois liberta-nos de trabalho administrativo. Sempre trabalhámos autonomamente, ainda que num diálogo constante com a Palha de Abrantes e a sua direção. Recentemente, quando comemorámos os 20 anos, fizémo-lo conjuntamente com o Espalhafitas, um projeto da Palha de Abrantes para o cinema, também com duas décadas de existência, que tem uma excelente produção em termos de documentários, mas não só… tudo isto encaixa e faz sentido. Temos gente local, que trabalha por vezes com auxílio externo, garantindo qualidade, a produzir sobre o que é nosso. O caminho só pode ser por aqui, de outro modo ficamo-nos pelos “fogachos” que apenas darão mais umas notícias…

 

São 40 edições de Zahara, milhares de páginas de história local dos sete concelhos. A revista tem um público fiel ou nota que há mais interesse dependendo dos textos e dos concelhos que lá vêm representados?

Tirando dois ou três números temáticos, apenas temos possibilidade de ter este tipo de revista, que publica aquilo que recebe. Obviamente que quem escreve já percebeu claramente que género de publicação somos. Depois é importante que, em termos de paginação se consiga algum equilíbrio e se possa captar a atenção do leitor. Obviamente que não estamos consolidados do mesmo modo em todos os concelhos que temos como alvo, pois de alguns nem sempre temos trabalhos, logo torna-se difícil fidelizar o público, enquanto noutros, por trabalharem de forma mais consistente as questões da História e do Património, é mais fácil encontrar espaços para distribuir a “Zahara” e temos mais leitores.

 

20 anos de CEHLA, 40 edições de Zahara. Qual é o sentimento que fica quando olha hoje para trás e vê todo o trabalho que já foi produzido?

Já o disse, um orgulho brutal. Apesar de, a título individual, ter publicados livros na área da História, este projeto, com a sua dimensão e consistência, numa junção de tantas e tão boas vontades, provoca-me uma realização pessoal indescritível. Uma revista de História Local/Regional, nascida no seio de uma associação, com uma periodicidade semestral nunca interrompida é um projeto único a nível nacional.

Ainda que contemos com o apoio das autoridades locais, não posso deixar de lamentar o facto de ficarmos com revistas em armazém cada vez que sai um novo número. Não consigo aceitar e entristece-me que uma revista com esta qualidade e com um valor de capa irrisório, publique 500 exemplares e fique com 100 ou 200 em casa. Trabalhamos para sete concelhos, onde vivem mais de 100 mil habitantes, onde há centenas de escolas, de juntas de freguesia, de associações, dezenas de bibliotecas públicas, muitas dessas entidades e pessoas que as lideram não perceberam a riqueza que é ter esta revista. Custa-me dizê-lo, mas um dia muitos chorarão a morte da “Zahara”, ainda que nada por ela façam enquanto está viva. Perdoem-me o desabafo, mas há quem não mereça o que temos feito...

 

José Martinho Gaspar na apresentação da revista Zahara, número 2

Afirmou que “tem sido um trabalho para as pessoas, para as atuais e para as vindouras, feito por uma infinidade de pessoas”. É esse o objetivo final? Deixar o registo do que foi para podermos perceber o que poderá vir a ser?

À medida que os anos passaram que as questões ligadas ao Património Imaterial foram ganhando expressão, percebemos que estávamos a fazer um trabalho, também de registo, que de outro modo se teria perdido. Quantos trabalhos saíram na “Zahara” que hoje já não seriam viáveis, porque quem deu o testemunho já não está entre nós? Esta não é a nossa única função, mas urge que este movimento de recolha se alargue, também com registos audiovisuais, cada dia que passa é tempo que se está a perder se ficarmos de braços cruzados.

 

Realizaram já 19 edições de Jornadas de História Local. Que balanço se pode fazer de um evento que “arrasta” as pessoas de um território a relembrar as suas memórias?

As Jornadas têm sido um importante momento de partilha e de encontro. O balanço é, obviamente, muito positivo. Em 2022 tivemos uma edição mais descentralizada, pelos concelhos que integram o projeto. Talvez o caminho deva ir por aí, aumentar o número de sessões, sem pensar em eventos de um dia inteiro, e fazê-las chegar aos vários concelhos, contribuindo para a construção deste diálogo.

 

Aqui chegados, também houve muitos Passeios com História. Como tem corrido esta iniciativa?

Esta é uma componente do projeto que arrancou com grande dinâmica. Porém, devido à pandemia, foi a ação do CEHLA que mais força perdeu. É uma valência que não podemos perder, pois o contacto direto com as realidades, o conhecimento das mesmas, é determinante para percebermos a sua importância. Só se ama o que se conhece.

 

Até onde pode ir o vosso trabalho no CEHLA? Há algum objetivo maior no futuro?

O CEHLA atinge o fim de um ciclo, quase todos aqueles que estão mais envolvidos são os mesmos de há 20 anos. É necessária uma renovação de pessoas, porque aqueles que têm estado mais ligados a tudo isto precisam de quem os auxilie. É fundamental que o projeto possa definitivamente impor-se no mundo do digital, para chegar a um público mais abrangente e, sobretudo, para captar gente mais jovem. Urge que o CEHLA assuma uma componente audiovisual, com uma base de dados de registo efetuada e disponibilizada em novos suportes.

A Zahara número 40