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27 set 2022
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Entrevistas

“Até ao lavar dos cestos é vindima” - Nuno Falcão Rodrigues (C/ÁUDIO)

8/09/2022 às 12:30
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É época de vindimas e todos temos curiosidade em saber o que pensam os especialistas acerca dos vinhos que podem surgir da campanha deste ano. Fomos falar com quem gere uma das mais conceituadas adegas da região e do país. Recebeu o Jornal de Abrantes na Quinta Casal da Coelheira, em Tramagal. Falamos, naturalmente, do proprietário e enólogo do Casal da Coelheira, Nuno Falcão Rodrigues.

Entrevista por Patrícia Seixas

Já começou a vindima... Quando é que se percebe que a campanha vai ser boa?

Eu respondo a essa pergunta com um ditado popular: “até ao lavar dos cestos é vindima”. No entanto, naturalmente que hoje em dia há muito pouco empirismo na produção de vinho, pelo menos para quem quer trabalhar com qualidade e regularidade. Obviamente que há pessoas que continuam a fazer grandes vinhos de forma artesanal mas em que, muitas vezes, as coisas saem um pouco ao acaso. Este ano correu bem, este ano correu mal… E nem se consegue explicar o porquê de ter corrido bem ou mal. Nós não podemos andar a correr esse risco mas, obviamente que há muitas coisas que fogem ao nosso controlo. Tudo o que é agricultura, principalmente a céu aberto, está dependente de um fator muito importante que é o clima. Mas nós começamos a perceber como vai ser a campanha, ou a ter alguns indícios, logo no final da floração. Se há um bom vinhamento do fruto ou não, se há o que chamamos desavinho, que são flores que não vingaram e que se perderam. E depois, com o decorrer do ciclo da cultura, se há problemas fitossanitários, com oídios, com míldios, podridões… e nesse aspeto, este ano foi um ano que nos correu bastante bem, as uvas estão a chegar perfeitas até agora. Ainda não lavámos os cestos…

Eu sei que é desejada pela maioria mas nós, neste momento, não desejamos a chuva. Agora, pode ser catastrófico nesta fase final de maturação até porque temos muitas parcelas ainda algo atrasadas, que ainda devem demorar umas três ou quatro semanas até estarem em condições de serem vindimadas e muita coisa ainda se pode alterar naquilo que é hoje a nossa perceção de qualidade.

O que é que perspetiva para os vinhos do próximo ano?

Lá está, voltamos ao mesmo… Para já, estou bastante confiante. Este tal fenómeno climático de défice de água não foi excessivo para nós e contribuiu para uma situação que é favorável em termos de qualidade, que são bagos de pequena dimensão. Se forem excessivamente pequenos podem causar desequilíbrios na qualidade dos vinhos mas não me parece que seja o caso. Penso que será um ano, para já, de excelente qualidade e estou bastante confiante. Mas ainda estamos muito no início da campanha.

O tempo quente e seco pode ser prejudicial, mas também pode trazer boas notícias no que à uva diz respeito…

Sim. Nós temos parcelas mais antigas que não são regadas, mas as vinhas plantadas nos últimos 15 anos já todas têm sistemas de rega instalado. As vinhas mais velhas, são vinhas que já sofreram muito na terra e elas próprias acabaram por estender as suas raízes à procura dessa humidade que necessitam. E o tempo seco acabou por não ser demasiado penoso para elas pois conseguiram manter uma boa vegetação e uma produção equilibrada. As vinhas mais novas estão já muito dependentes da rega e aí tivemos que compensar de alguma forma com um pouco mais, naqueles períodos de pico de quarenta e tal graus, para que a planta sofresse menos nesses choques térmicos.

A seca também se fez sentir no Casal da Coelheira?

Sim, sim. Para além da vinha, temos outras culturas como o milho, o trigo, a ervilha. Referindo-me concretamente ao milho, que é uma cultura de primavera/verão, que vai ser colhida dentro de 15 dias/ três semanas, aí sim, sentimos o nível freático a baixar, os caudais dos furos de captação a quebrar e a cultura a sofrer de alguma forma. Aí, a rega não conseguiu ser feita com os caudais que a planta precisava

Com a guerra, os preços aumentaram, e na produção tem um grande impacto. O que é que se avizinha para os próximos tempos?

Como consumidores, somos confrontados diariamente com aumentos de preços nas prateleiras dos supermercados. Essencialmente nos bens alimentares, combustíveis, energia… O mercado do vinho não permite que nós passemos diretamente para o produto aquilo que são os impactos económicos que nós estamos a sentir com esta crise. Eu sou um bocadinho cético relativamente à justificação total da guerra para estas situações porque a guerra não justifica tudo. Penso que haverá muito oportunismo por trás. Há aqui muitas situações em que não se justifica os acréscimos de custo que algumas matérias-primas estão a ter e nós, infelizmente, no mercado dos vinhos, não nos permite duplicar o preço do vinho de um dia para o outro como nos está a acontecer com o cartão, com a garrafa, com a energia elétrica, com os combustíveis, os fitofármacos, os adubos… tudo isso duplicou de preço. Não estou a falar com metáforas. São situações reais mesmo a multiplicar por dois. Nós fizemos alguns ajustes, pequenos ajustes, aqueles que o mercado nos foi permitindo fazer porque se damos saltos grandes, corremos o risco de ficar com o produto em casa porque o vizinho do lado vende mais barato. Também é verdade que o mercado hoje em dia, e cada vez, mais procura qualidade.

A vindima começou com os brancos, mais propriamente com a apanha da casta Chardonnay. Este tem sido um dos grandes sucessos da Quinta...

É verdade. É uma casta relativamente antiga na nossa casa e que nos acompanha desde o início, quando os meus pais compraram a quinta. Na altura, foi necessário fazer reconversão de vinhas, modernizar a adega mas, nomeadamente nas vinhas, foi feito um trabalho muito profundo. Contudo, era uma altura em que havia pouco conhecimento sobre as castas portuguesas. Não pela sua falta de qualidade, não pela falta de qualidade dos vinhos portugueses, mas porque, tradicionalmente, as vinhas em Portugal eram plantadas naquilo que os ingleses chamam de field blend, ou seja, uma parcela tinha muitas vezes 10 castas diferentes. Era portanto difícil, para não dizer impossível, colher as castas separadamente e vinificar as castas de forma separada. De maneira que eram muito raros os vinhos monovarietais de castas portuguesas. Naquela altura conhecíamos muito melhor as castas francesas e eu também trazia um pouco essa influência francesa porque também estive a estudar, a trabalhar e a desenvolver algum conhecimento na área dos vinhos em França. O Chardonnay foi uma casta que foi introduzida aqui no início dos anos 90 e tem sido a base de uma das nossas referências, o Casal da Coelheira Reserva Branco, que tem 80% de Chardonnay.

 

“Não diria que o investimento é diário, mas é quase”

 

Onde é que já estão os vinhos do Casal da Coelheira e que mercados é que gostava de alcançar?

No continente americano estamos no Canadá, Estados Unidos, Equador, Brasil obviamente e estamos com uma perninha na Costa Rica e na Colômbia, que são dois mercados que estão para abrir muito brevemente. Na Europa, onde a diversidade é maior, estamos em França, nos Países Baixos, Polónia, Reino Unido, Alemanha, Suíça, República Checa, Hungria, Letónia, Estónia, Lituânia e Dinamarca. Já estivemos na Rússia mas neste momento não estamos. Um bocadinho mais para lá, estamos na China, na Coreia do Sul e Japão.

E há algum mercado onde ainda queiram entrar ou, para já, está bom assim?

Não. Para já, está muito bom. O importante para nós neste momento é consolidar relações, consolidar mercados. Os Estados Unidos, por exemplo, é um mercado onde nós temos uma bandeirinha mas gostaríamos de expandir um pouco mais a nossa presença. O Brasil foi um mercado em que nós, também por força da Covid e problemas que surgiram com o nosso importador local, tivemos praticamente dois anos e meio fora. Reativámos esse mercado o ano passado e estamos praticamente a construir tudo de novo.

No Casal da Coelheira dá para apontar um vinho “chapéu”? Há alguma estrela ou quase todos dão muito boa conta de si? Claro que há sempre o Mythos...

Permita-me responder a essa pergunta com outra pergunta que me fazem com muita frequência em eventos: “então, para si, qual é o seu melhor vinho?” Fazem-me esta pergunta tantas vezes que eu já tenho a resposta pronta e acaba por ser uma resposta fácil e difícil ao mesmo tempo. O Mythos é, de facto, a nossa referência e o nosso cartão de visita mas se for bebido no dia de hoje ali fora (a entrevista foi feita na Quinta do Casal da Coelheira a 25 de agosto, tarde muito quente), sem um acompanhamento, vai ser um vinho desagradável. Provavelmente será muito mais agradável irmos com um Rosé fresquinho. Portanto, depende muito da época do ano, se estamos a acompanhar com comida ou não, a nossa companhia, o nosso estado de espírito… tudo isso vai influenciar. Cada vinho encaixa nesse momento, nessa gastronomia, naquele ambiente. Como agora é habitual dizer, são experiências diversificadas.

Os vinhos do Casal da Coelheira têm sido premiados ano após ano, concurso após concurso, quer a nível nacional, quer lá por fora. Desde o início desta aventura, o que é que considera ter sido o fator decisivo para o sucesso alcançado?

Não sei se há um fator decisivo, são um conjunto de fatores. Naturalmente que o que me apetece dizer é a paixão com que nós vivemos isto, pois sem essa paixão não se consegue o sucesso. Termos a vivência diária deste projeto, quase 24 horas por dia, apesar de até podermos estar à beira mar, mas estamos sempre a pensar. Vemos alguma coisa e temos ideias para o nosso projeto. É essa paixão e essa vivência. Mas obviamente que se nós não tivéssemos terrenos de qualidade, se os solos não fossem adequados para as vinhas, se não tivéssemos castas de qualidade, se não tivéssemos uma adega bem equipada e, principalmente, se nós não tivéssemos uma equipa fantástica, nada disto se conseguia porque eu sozinho não faria nada, o meu pai sozinho não faria nada e nenhum de nós, sozinho, conseguiria fazer o que temos conseguido fazer com algum sucesso. Claro que há sempre coisas para melhorar e é esse o nosso desafio diário, é a nossa ambição diária, é fazer amanhã melhor do que fizemos hoje. Só assim conseguimos crescer e melhorar.

O investimento na adega foi um projeto maior...

Não diria que o investimento é diário, mas é quase. Quase todos os dias temos que investir numa máquina, num equipamento… há sempre qualquer coisa. Este ano fizemos um investimento muito grande numa vinha. É a área maior de vinha que plantámos num único ano, foram oito hectares – que para outros produtores é uma gota de água – mas que para a nossa dimensão, para a nossa estrutura e para a nossa tesouraria, é um peso grande. Mas lá está, o futuro faz-se hoje, como alguém disse.

O Nuno, para além dos vinhos que já conhecemos, tem entrado noutros desafios, como é o caso da parceria com o Restaurante Casa Chef Victor e a criação do vinho “Raízes”...

Como eu disse há pouco, a restauração é essencial para nós e como disse na altura do lançamento, este vinho é um filho da Covid. Nasceu da mente de uma pessoa, que estando numa fase, provavelmente, das mais complicadas da sua vida, com a sua casa fechada, teve esta ideia quando devia estar a pensar em como é que ia sobreviver com a casa fechada e pagar os encargos que tinha. Mas não. O Chef Victor estava com esse dinamismo e com a vontade de ultrapassar esta maré mais negativa e foi um desafio que me fez. A ideia foi dele e o produto correu bem e continua a correr bem. Acabámos por ter um Raízes 2, no sentido de que lançámos um novo vinho. O que veio para o mercado, inicialmente, foi um tinto da colheita de 2017 e depois renovámos esse vinho com a colheita de 2019, mas, entretanto, também lançámos um branco, um Raízes branco que está a ser um sucesso muito interessante. Traz-nos pessoas à loja, pessoas que consomem no restaurante, e o Chef Victor é um embaixador dos nossos vinhos, mas não só. É um grande embaixador da nossa terra e dos nossos produtos e penso que esse é o caminho. Da mesma forma que nós entendemos que devemos valorizar as castas portuguesas, eu penso que esse é o caminho para que o restaurante A, B ou C também se distinga dos outros, com essa visão de ter aquilo que é mais ou menos exclusivo, mais ou menos próprio da nossa região.

Está então disposto a mais aventuras deste género…

Sim, mas não massificar. Estas coisas têm piada e têm sucesso quando estamos focados e dedicados àquela parceria e àquele projeto.

Este veio na altura certa?

Veio na altura certa. Naturalmente que se me aparecer um outro restaurante que tenha uma ideia similar, eu não recusarei. Dependendo obviamente das condições em que as coisas forem feitas. Mas esta não é uma ideia para massificar, com toda a certeza, porque se não, acaba por perder muito daquilo que é o intuito inicial do projeto.

 

“Sou um bocadinho cético relativamente à justificação total da guerra para estas situações porque a guerra não justifica tudo”

 

Ainda nos vinhos, como é ser apontado como um dos melhores enólogos do país?

Isso é uma novidade para mim… (risos) Fui candidato [nomeado em 2019], mas estou muito longe disso. Se fosse convidado para um júri para eleger o melhor enólogo do país, eu não encaixaria no perfil daquilo que eu considero ser preciso para ser o melhor enólogo. Eu acho que deve ser alguém que tenha uma experiência mais ou menos alargada a nível nacional, não necessariamente fazer vinhos em todas as regiões, mas o facto de eu fazer vinho num produtor só, que sou eu próprio, acaba por limitar-me muito nessa ambição que eu não tenho. Aquilo que me move é fazer o melhor que posso, o melhor que sei, e querer amanhã saber mais e poder fazer mais. É um passinho de cada vez, o mercado tem reagido bem ao que estamos a fazer, às novidades que vamos lançando e isso alimenta-nos essa inspiração para poder ter ideias para fazer outras coisas, eventualmente.

Na Quinta do Casal da Coelheira também há cereais. Nos tempos que correm, são um bem precioso mas, mais uma vez, os custos de produção também se tornaram quase insustentáveis. Como está a ser este ano?

Relativamente aos cereais, não me posso lamentar da mesma forma como o faço relativamente ao mercado dos vinhos. O mercado dos vinhos não tem a elasticidade para reagir ao mercado nesse aspeto. E os cereais acabam por estar associados a uma bolsa mundial de commodities, não digo que haja uma cotação mundial para o cereal, mas acaba por haver uma influência grande da valorização do cereal noutros mercados, como o americano, asiático, Europa de Leste… No caso dos trigos, que é uma campanha que já terminou, houve efetivamente – e mal de nós se não houvesse – um ajuste do preço de venda àquilo que foram os aumentos dos custos dos fatores de produção. Não foi para o dobro mas acabou por acompanhar e atenuar um pouco esses aumentos do custo de matérias-primas. Relativamente ao milho, vamos ver. A campanha está para começar, não temos ainda sensibilidade para o que vão ser as cotações de mercado, mas pelas notícias que vamos vendo da Ucrânia e com a escassez de cereais que há no mercado, quero crer que, para mal do nosso mercado alimentar, haja um acompanhamento do valor do milho, relativamente às campanhas anteriores.

E para onde vão os vossos cereais?

Devido aos canais de distribuição, naturalmente que são os produtos menos mediáticos do Casal da Coelheira. No entanto, acabam por ocupar uma área maior do que a vinha. São comercializados por grosso. A ervilha vai para uma empresa de ultracongelados e os cereais são normalmente destinados a moagem, animal ou humano, em função das características que o próprio cereal tiver. São vendidos a intermediários ou diretamente à indústria.