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05 out 2022
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Economia

Endesa avança com projeto pioneiro em Portugal - Nuno Ribeiro da Silva (C/ÁUDIO)

5/05/2022 às 12:30
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A Endesa vai instalar um complexo de produção de energia solar e eólica, um complexo de baterias e uma unidade de produção de hidrogénio verde de 224 MVA. No dia 1 de abril a Endesa Géneration Portugal, transferiu a sede social para Abrantes e é aqui que vai instalar o centro de trabalho na área da geração de energia no nosso país. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Abrantes, Nuno Ribeiro da Silva, confirma que a empresa vai absorver 75 trabalhadores da central a carvão e explica que não vai haver um complexo gigante de painéis solares ou torres. Vão ser construídos muitos complexos no concelho de Abrantes e concelhos limítrofes. E adianta que o grupo quer colocar pecuária ou apicultura nos territórios onde irão ser instalados os painéis solares.

Entrevista por Jerónimo Belo Jorge

Que projeto é que a Endesa apresentou e que ganhou este leilão para o Ponto de Injeção na Rede do Pego?

Basicamente o projeto da Endesa, tendo em linha de conta o enquadramento legal do nosso País e tendo também a possibilidade de uma competência e capacidade técnica e ainda de toda a dinâmica que vai havendo da tecnologia ligada à geração de eletricidade, fez uma combinação de tecnologias que contempla a instalação de capacidade de geração com base em energia solar, em energia eólica, em acumuladores (armazenamento em baterias) e ainda uma unidade inicial de electrólise para produção de hidrogénio. O interessante deste cocktail é que permite que ao articular estas tecnologias haja uma disponibilidade deste complexo para entregar à rede eletricidade em mais de 60% das horas, ao longo do ano.

Isto permite dar uma grande fiabilidade a este complexo de tecnologias de geração e acumulação de eletricidade e ocupar muito menos capacidade na ligação à rede elétrica. Por isso sobraram [e creio que a intenção do governo será, tanto quanto sei, por a leilão num futuro próximo, ainda este ano] a capacidade remanescente que fica do ponto de ligação onde a antiga central a carvão se conectava à rede.

É um projeto pioneiro e não só em Portugal. A nível do grupo [Endesa] foi um primeiro exercício de combinação entre estas tecnologias, entre os megawatt de energia solar que vamos instalar, na ordem dos 365 MW, de energia eólica, na ordem dos 264 MW, e de capacidade de acumulação, na ordem dos 168 MW. É também o maior centro de acumulação, a maior bateria, que será instalada em Portugal, e não só. E para além ainda da unidade de produção de hidrogénio verde, do eletrolisador. De uma maneira geral, do ponto de vista técnico, a novidade deste projeto, não só em Portugal, é a exploração de todo o potencial técnico que está ao dispor ao nível da evolução da geração de eletricidade.

Este é o projeto técnico. E onde é que vai ser instalado o complexo? Ou seja, onde é que ficam as torres eólicas e os painéis solares?

Vão ser dispersos por vários municípios da região. Não vamos ter estas unidades todas concentradas num único ponto físico. Não só porque não é desejável, do ponto de vista do ordenamento do território, como além do mais uma especificidade das energias renováveis é “ir apanhá-las” onde elas têm maior potencial. Ou seja, eu vou instalar torres para geração eólica e painéis para geração solar nos locais adequados, ou com mais vento, ou com mais luminosidade e insolação. Não vai ser, efetivamente, um enorme complexo concentrado onde todos estes equipamentos vão ficar instalados. Vão ficar disseminados pelo território da região.

 

“Estamos a clarificar qual a situação de todos os trabalhadores que estiveram afetos à central a carvão”

 

O concurso público está finalizado e fechado. A “obra” está entregue. Quando é que a Endesa vai começar a colocar no terreno este projeto? Ainda vai demorar algum tempo? 

O compromisso é de conclusão deste corpo de investimento, superior a 600 milhões de euros, estar disponível e funcional em março de 2025. Este é o compromisso que está assumido. Entretanto, há todo um processo que não passa só pela produção ou entrada em funcionamento destes equipamentos. Nós estamos já a trabalhar há algum tempo. Faz parte deste caminho o termos instalações no concelho de Abrantes que já estão selecionadas, naturalmente virão a ter que crescer no futuro, à medida que formos incorporando mais pessoas e que formos desenvolvendo, e construindo, toda uma logística na região. Mas o trabalho já começou e cada dia é um dia que temos que aproveitar muito bem, porque o tempo que temos para instalar toda esta infraestrutura, em grosso modo três anos, não é demasiado.

A Endesa anunciou que iria “absorver” 75 trabalhadores que ficaram sem emprego com o encerramento da central a carvão. Confirma este número?

Sim. Claramente é um dos quesitos do concurso. Não é uma opção é uma obrigação da nossa parte. Faz parte da construção deste projeto, ainda não se vêm torres ou painéis, mas estamos já em contacto estreito com, nomeadamente, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), com o Politécnico de Tomar e em Abrantes, a desenvolver e clarificar qual a situação de todos os trabalhadores que estiveram afetos à central a carvão. Essa é uma primeira prioridade e ação que está já a correr. Já solicitamos às entidades oficiais informação mais detalhada sobre cada uma das pessoas e é fundamental este processo de requalificação, de formação, de confirmação da disponibilidade destas pessoas. Sabemos que algumas optaram por reformas ou por se integrarem noutros projetos, mas é um tema que faz parte do nosso compromisso e responde aos termos do concurso para esta nova fase de vida do Pego.

Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal

Já explicou que não vai haver um grande complexo, as zonas de geração vão ficar disseminadas, mas tanto quanto sei há uma preocupação, ou uma aposta, na valorização da natureza. Ou seja, nos complexos de painéis vai haver condições para pecuária, apicultura neste meio de produção de eletricidade. Quer explicar?

O grupo tem projetos já desenvolvidos em Espanha que estão a ser chamados de agro solar. O que é que isto tem por trás? De facto não há necessidade de anular algum potencial agrícola, e não só, dos terrenos que são ocupados por parques solares. Eles podem continuar a ser produtivos ao nível de agricultura e de agroindústria com a seleção de soluções adequadas à especificidade da afetação que um terreno passa a ter com a instalação de parques solares extensos. Por exemplo, podem-se instalar os painéis a um nível superior ao nível do solo, portanto com 1,5 ou 2 metros acima do solo, e dessa forma poder fazer a exploração, por baixo e entre painéis solares, de plantas ou para a pastorícia que sejam alimento de gado ovino, ou caprino ou para plantas aromáticas que sejam uma fonte de alimentação para a apicultura. Há muitas aplicações que foram exploradas, desenvolvidas e sobre as quais temos alguma experiência e que compensam alguma ideia feita que a partir do momento em que se instala e se ocupa o solo com painéis solares acabamos por perder outro potencial desses mesmos solos. É algo que preocupa a indústria de geração de eletricidade com base em energia solar. Isso iremos implementar também nas unidades que vierem a ser construídas na região.

 

“A Endesa vai instalar  365 MW de energia solar, 264 MW de energia eólica, com armazenamento integrado de 168,6 MW e um eletrolisador de 500 kW para a produção de hidrogénio verde”

 

A Endesa está obrigada, de acordo com o caderno de encargos do concurso deste leilão, a ter ligações a instituições da comunidade. Sei que mesmo antes de ter fechado o concurso já tinham iniciado estes contactos…

… Claro. A questão da contribuição para a comunidade local, com foco no concelho de Abrantes, mas a nível da região, a CIM Tejo (Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo) e mesmo alguns concelhos da região fora desta unidade administrativa, é um ponto crítico para nós. E estava registado nos termos do concurso. O aspeto interessante nesta viragem tecnológica de uma unidade de produção a carvão para um complexo com as tecnologias que, entretanto foram sendo disponibilizadas é que há uma inserção muito mais democrática e muito mais direta e fina com as comunidades locais. Uma coisa é ter um enorme forno e uma unidade concentrada como será uma central a carvão ou uma central a gás. Outra coisa é ter um complexo de geração de eletricidade disseminado no território. E isso implica um compromisso reforçado com as pessoas, com os habitantes, com as comunidades locais. E aí há, não só um conjunto de medidas em termos de colaborar ao nível da eficiência energética com os municípios. Contribuir para o acelerar da eletrificação da mobilidade, da substituição dos veículos a combustão a petróleo e gás por veículos elétricos e, com vários outros detalhes, onde se inclui a própria entrega de eletricidade ao município. Mas a questão central é, de facto, a formação e as oportunidades de emprego que um projeto destes vai gerar. Estamos a falar de novas tecnologias, de novas soluções ligadas a todo o processo, mais geral, da descarbonização e da transição energética. E isto é uma oportunidade para jovens, que sabemos que são sensíveis às questões ambientais e as oportunidades que cria a necessidade da transição energética e da descarbonização, agora do reforço da autonomia energética do país, que agora esta questão da Rússia também nos veio lembrar. É de facto interessante e é uma área central para poder construir carreiras profissionais, moderna e de futuro. E isto leva-nos a querer ter um entrosamento muito grande com as instituições, em particular na região, que estão afetas à formação de jovens, como o caso do politécnico, e também, porque vamos precisar de bastantes colaboradores, a reconversão das pessoas que estiveram afetas a outro tipo de operações e atividade, como já falamos dos trabalhadores da central a carvão. É uma área desafiante para se poderem criar atividades e oportunidades de trabalho de futuro.

 

“não há necessidade de anular algum potencial agrícola, e não só, dos terrenos que são ocupados por parques solares. Eles podem continuar a ser produtivos a nível de agricultura e de agro-indústria”

 

Já há perspetivas de quando é que a primeira torre eólica ou painel solar vai estar no terreno?

Não. Não temos uma data porque são projetos que vão sendo desenvolvidos em paralelo. São muitos locais de instalação, seja de painéis solares ou de de geradores. Diria que, nesta fase, estamos a fazer um trabalho de preparação, menos visível de gabinete seja na instalação de um centro de trabalho em Abrantes, seja em tratar de clarificar e de preparar a contratação da equipa para atividades mais imediatas e urgentes que vamos necessitar. Estamos a fazer um trabalho ainda pouco visível, mas fundamental para irmos para o terreno. Estamos a falar com os proprietários dos terrenos para clarificar, já em detalhe e em que cada caso é um caso, como é que vamos atuar. Estamos a fazer um trabalho de retaguarda para depois ter uma programação, que é muito complexa, para depois iniciarmos uma fase mais visível de instalação de equipamentos no terreno.

Pego: O ponto de Injeção na Rede

A capacidade da ligação à rede elétrica da central do Pego, de 600 MVA, será reduzida a partir de 2024, para 485 MVA, com entrada em exploração das centrais solares fotovoltaicas flutuantes de Cabril e Castelo do Bode. Mesmo assim, a Endesa, que venceu o leilão deste ano, vai ocupar apenas 224 MVA do Ponto de Injeção na Rede do Pego. Quer isto dizer que, de acordo com estes dados, o Ponto de Injeção na Rede do Pego tem ainda disponível 261 MVA que poderão ainda ser leiloados pelo Estado. É pelo menos essa a convicção de Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal.

A Endesa, através da sua filial Endesa Generación Portugal, ganhou o leilão e recebeu um direito de ligação à Rede Elétrica de Serviço Público (RESP) de 224 MVA [MegavoltAmpere] para instalar 365 MWp [megawatts-pico] de energia solar, 264 MW de energia eólica com armazenamento integrado de 168,6 MW e um eletrolisador de 500 kW [quilowatts] para a produção de hidrogénio verde.

A Central Termoelétrica do Pego era o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás. A central a carvão fechou a atividade a 30 de novembro de 2021 enquanto que a central a gás prosseguirá em atividade, com contrato válido até 2035.

A concessão da central a carvão pertencia à Tejo Energia que tem na sua estrutura acionista Trust Energy (uma joinventure da francesa Engie com a japonesa Marubeni) com 56% do capital e a Endesa Géneration com 44%.

A Elecgas detém a central a gás e tem os mesmo acionistas da central a carvão, mas cada um com 50% do capital.