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09 dez 2022
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Entrevista

Carlos Saramago - O estilo é o surrealismo, mas a adaptação e resiliência são as palavras de vida (C/ÁUDIO)

20/10/2022 às 12:30
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Nasceu em Abrantes em 1972, filho de um casal humilde de Mação. Desde a escola primária começou a mostrar “jeito” para as pinturas e foi um professor de Educação Visual que lhe deu “algumas dicas” para continuar a fazer trabalhos de pintura. A primeira exposição foi feita aos 17 anos num café e em 1990 rumou a Itália em busca do sonho. E foi neste país que começou a pintar nas ruas e que conheceu Rotilio Giorgio, um artista que lhe proporcionou novos conhecimentos na mistura de tintas. Três anos depois voltou a Portugal e começou a pintar, numa linha “Saramago” com um estilo surrealista e, ao mesmo tempo, no verão, a fazer arte de rua, com incidência no retrato ou na caricatura.

Hoje, aos 50 anos, Carlos Saramago continua a sonhar e a colocar a imaginação nos óleos. E continua a mostrar uma resiliência tal que, mesmo com a doença (epidermólise bolhosa) que lhe afetou as mãos, um cancro e uma amputação do antebraço direito, não lhe baixam a vontade de continuar a pintar e de ter uma associação ou fundação com o seu nome para apoiar artistas com deficiência.

Entrevista por Jerónimo Belo Jorge

Quando é que começaste a desenhar, a pintar, a perceber que tinhas jeito para a arte?

Recuando mesmo ao início, desde muito pequeno comecei logo a pintar, desde a escola primária. Mais tarde houve alguém que visitou a casa dos meus pais viu um desenho e disse “isto é giro, é engraçado”. E depois tive um professor de educação visual que viu que tinha jeito e começou a dar-me temas para pintar. Na altura até era a distorção da camada de ozono e eu começava a fazer aqueles desenhos. Em 1988 é que comecei a pintar a óleo e acrílico, mas sempre autodidata, sem ter nenhuma escola, a não ser a primária e secundária...

... foi um início logo com cores, ou seja, não começaste a desenhar e depois é que vieram as pinturas...

... foi logo lápis de cor, guaches e aguarelas, foi logo a arriscar forte e feio.

Estes primeiros passos foram fáceis, seguir o gosto e o dom, ou foi preciso dosear entusiasmos?

Na altura nem pensava em ser artista. Era a curiosidade. Eu era muito curioso em saber como é que conseguiria realizar a pintura, como é que iria sair. Como tinha essa curiosidade não havia essa preocupação, nem sequer se estava a fazer bem ou mal. Eu queria era fazer. Ainda hoje não sei se pinto bem ou mal.

 

”A partir de 2015 dei um salto na minha obra” 

 

Em 1989 fazes a tua primeira exposição. Onde foi? Que trabalhos apresentaste?

Sim, recordo-me. Era uns temas que eu desenhava... não havia um estilo muito próprio. Fiz a exposição num café. Era o que desenhava na altura, o que me vinha à cabeça, flores, paisagem, cavalos... Tinha 17 ou 18 anos.

Ainda tens algum em tua posse?

Resta-me só um desenho dessa altura. Encontrei-o há sete anos, mais ou menos. Foi um desenho que foi publicado no jornal “Voz da Minha Terra” por causa de um grupo de amigos que, na altura me queria ajudar, porque descendo de uma família humilde, os meus pais não condições para o suporte familiar. E este grupo pretendia ajudar-me a comprar materiais para eu conseguir seguir com o meu dom. Um dom, porque o sonho veio mais tarde. Nunca pensei em ser um artista, queria era desenhar e pintar. Nunca pensei: vou ser isto.

Depois sais do país em 1990. Vais para a Suíça e para Itália porquê? O que foste à procura?

Tinha esta dificuldade financeira e surgiu a hipótese de ir para a Suíça. O meu cunhado e a minha irmã estavam lá e deram-se dormida e todo o apoio e disseram “vais tentar”... Eu era muito novinho, não sabia falar italiano e fui para a rua pintar. As galerias não conheciam o meu trabalho e por isso fui para a rua. E os primeiros quadros que pintei vendi-os logo o que foi uma alegria. Voltei logo no segundo dia, sem pensar nas minhas dificuldades, se sabia falar ou não. Pensei foi: “isto resulta, amanhã tou lá e vou pintar algo mais da zona, em vez de pintar paisagens de Portugal. E resultou.”

 

Giorgio Rotilio e Otto Bachmann são dois nomes que estão na tua vida e obra. Quem são e o que mudaram ou acrescentaram ao artista Carlos Saramago?

Como não sabia falar muito italiano recebi a ajuda destes dois artistas que pintavam na rua, como eu. Eram artistas de rua. Tinham espaços físicos deles par ao inverno, mas no verão eram artistas de rua. E deram-me todo o apoio deles. Realmente depois, acabei por começar a falar italiano e fui para o atelier deles. E foi ali que aprendi a mistura de cores, a forma de trabalhar deles. “Bebi muito da arte deles e isso dá-te um empurrão para conseguires começar a pensar no tal sonho”. E é aqui que comecei a pensar: “podia seguir isto, parece-me fácil”. Já sabia desenhar, ali deram-me umas dicas para misturar as cores. Ali comecei a acreditar que podia ganhar dinheiro com a pintura.

Em 1993 voltas a Portugal. Com que objetivo?

Antes, aconteceram-me umas peripécias em Itália, onde fui operado. Saí do hospital e vinha a falar muito bem italiano, foi quando voltei conheci a minha esposa e, como não podia fazer mais nada, pensei fazer cá o mesmo que fazia lá: pintar na rua. Embora tivesse que ser só no verão e comecei a fazer isso. No verão fazia arte de rua e no inverno exposições. Porque não vendia a minha arte, a minha pintura. Vendia caricaturas...

... E como é que nasceu a caricatura. Foi por uma necessidade da rua, de fazer a arte na rua?

Foi. Era o mais rentável, até porque na Suíça o Giorgio era retratista e vi-o a trabalhar e, já em Portugal, pensei que podia fazer isso e comecei a praticar.

 

“É o meu estilo (surrealismo Saramago) que eu vendo”

 

Quando olhas para uma pessoa, imaginas logo onde pegar para caricaturar, ou começas a desenhar e depois é que “crias” o boneco? Porque, acaba por ser isso?

A caricatura é totalmente diferente do retrato. No retrato estás a copiar uma coisa e é o que estás a ver. A caricatura, tens de identificar logo os traços. Quando uma pessoa se sentava vinha alegre e conseguia logo captar os traços mais engraçados para fazer a caricatura, embora nunca tenha conseguido exagerar. Nunca consegui. Não gostava de estar a brincar com as pessoas. Fazia um retrato mais divertido e não a caricatura cómica.

As pessoas ainda procuram muito a caricatura?

O retrato. Procuram o retrato, sim.

Através de fotografia com com a presença física da pessoa?

Mais da presença física. Acho que a pessoa quer ver como é que o artista a vê. Quando dá uma fotografia não há a sensação de estar a posar. Há ali uma magia entre o artista e a pessoa a posar e isso sente-se. Essa magia passa no olhar, no sorriso. Um retrato demora tempo. Eu na rua fazia um esboço e demorava cerca de 30 minutos. Se for um retrato completo leva duas a quatro horas.

Mas continuaste sempre com a pintura. Hoje, se te perguntar qual o estilo em que te inseres, como é que o cidadão Carlos avalia a pintura do artista Carlos Saramago?

Gosto que sejam os outros a dizer qualquer coisa. Mas as minhas coisas são Saramago. Se formos a ver é surrealismo, um surrealismo de Saramago. O surrealismo é a minha praia, são as minhas fantasias, os meus sonhos, as minhas criações, as minhas histórias. No surrealismo consegues misturar isso tudo. E tento fazer com que essas histórias sejam passadas e que as pessoas as interpretem, à maneira delas.

Tiveste esta linha de surrealismo ou tentaste entrar noutros estilos?

Tentei. Tentei ir ao realismo, paisagem, impressionismo e até mesmo o abstrato. Mas sempre que estava no abstrato, quando dava por ela já estava no surrealismo. Então não dá para fugir, é o teu subconsciente a passar para a tela.

 

Ali (Itália - 1990/91) comecei a acreditar que podia ganhar dinheiro com a pintura”

 

Carlos, há na tua vida uma contrariedade que foi o aparecimento da doença que te afeta principalmente as mãos (epidermólise bolhosa). Quando percebeste os contornos desta doença, pensaste que a arte poderia desaparecer da tua vida?

Sempre vivi com uma doença de pele e sempre tive as mãos atrofiadas, então toda a minha vida na arte foi uma adaptação constante. O ter aparecido um cancro, mais tarde, fez-me pensar que era só mais uma doença, um acrescento. O ter de fazer a amputação do antebraço aí já me fez pensar que isto esta a evoluir muito rapidamente. Mas quando acordas de manhã sentes que falta qualquer coisa e tens de fazer coisas, tens de criar. E a arte chama por ti. Olho para as telas, para as tintas e para o pincel e digo “vamos pintar”. Não estou a pensar na mão, é a continuação da adaptação. É outra adaptação. Eu não sei explicar, eu sinto falta da arte. A mão ia atrofiando e fechado e eu ia fazendo a adaptação. Agora é outra adaptação.

Tiveste sempre uma resiliência enorme. Fizeste uma adaptação a esse problema, que acredito que nem sempre tenha sido fácil…

... a minha quebra nem foi na questão da doença. A minha quebra era mais o pensamento “o que é que vou fazer a tantas pinturas?” Tu vais vendendo, mas vais acumulando e começas a pensar que não consegues dar aquele salto. E no meio de todo este turbilhão consegui dar o salto. O meu nome é conhecido, a pinha pintura é procurada, tenho pessoas a investir em mim. Eu tenho 50 anos e isto não devia acontecer agora, devia acontecer quando eu tiver 70 ou 80. Mas está acontecer agora. Essas quebras que tive estão a ser compensadas pelas coisas boas que estão a acontecer.

A pandemia, dois anos complicados, afetaram muito o teu trabalho?

A pandemia para mim não me trouxe inspiração. Eu pensei na pandemia, no confinamento, como meu porque um artista está sempre em confinamento, está sempre em “pandemia”. A arte não é decorativa, é para pendurar, mas não decoração apenas. A arte é decoração, mas é investimento. Nessa altura houve esta “boa fé” de quererem ajudar os artistas. Eu tive esse apoio. O ano 2020 foi aquele em que vendi mais, e estavamos em pandemia. Mas o artista é um solitário está sempre em confinamento. É aqui [sala onde tem o cavalete, as tintas e os pincéis] que tenho o meu confinamento, onde me sinto bem. Tanto pinto na rua como dentro de casa, mas digo que é em Mação que me sinto mais inspirado. Já fui para exposições fora do país e não tive tanta inspiração. Nãos sei explicar. Serão os ares, a minha casa, as minhas coisinhas... é isso tudo. E estar a pintar, sair à rua respirar o ar, o cheiro a eucalipto... faz-me voltar para dentro de casa e agarrar-me à tela.

 

Tens atelier, fazes exposições e tens lojas online. Esta também foi uma adaptação do Carlos Saramago?

Sim foi. Eu recebi muitas negas de muitas galerias porque a arte do Carlos Saramago é muito bruta, muito intimista e as galerias achavam que não vendia. E ao receber as negas tive de me adaptar. As redes sociais e o online permitem dar a conhecer a tua arte e como tal fui criando esses espaços online, embora só tenha vendas em dois sites. Um de uma leiloeira e o meu site principal (blogue). Mas o online só te dá a conhecer porque as pessoas que querem mesmo comprar arte vem ver ao vivo. Quem procura a arte sabe que uma imagem não é o quadro real, porque as cores modificam-se. Por exemplo, tenho clientes que vêm aqui a casa e estão a ver os quadros e depois dizem “vamos levá-los para a rua.” A luz muda tudo. As redes (sociais) servem para divulgar, mas nas vendas as pessoas vêm a casa para ver os quadros.

Neste momento tens trabalhos a pedido ou os potenciais compradores vêm ver o que tens feito?

É curioso. Até 2015 era por encomenda. As pessoas queriam um vaso e eu pintava. Depois de 2015 as coisas mudaram. Não tem a ver com redes sociais ou exposições. Os poucos clientes que tinham e que investiam em Saramago começaram a ter os quadros em casa e começaram à procura. E começaram à procura do meu estilo. É aquilo que vendo. Eu tenho paisagens em casa e não as vendo. As pessoas querem o meu estilo de surrealismo.

 

“Tenho o objetivo de criar uma associação com o meu nome para apoiar artistas deficientes”

 

Aos 50 anos, o que é desejas para o futuro imediato, para além, claro, de continuares com o teu trabalho?

Sou uma pessoa de objetivos. Neste momento o objetivo é no terreno que tenho lá fora criar um espaço digno para pintar e para ter as minhas pinturas expostas, porque aqui [em casa] é reduzido e improvisado. Depois, no futuro, é conseguir, porque surgiu-me esta ideia, criar uma associação ou uma fundação com o meu nome com o meu espólio, apesar de ser curto, neste momento. Tive investidores que que compraram as minhas obras que estão agora espalhadas por Portugal, França, Holanda, Suíça. E são aquisições não de um quadro, mas de 10, 15. Tudo aquilo que vier a pintar, com a adaptação nova, vai ficar para essa associação que terá como objetivo apoiar artistas com deficiência. Dar apoio naquilo em que Portugal não está a dar. Fui agora com outros três pintores representar Portugal a Milão (Itália) e foi tudo à nossa conta. Se existir um apoio, nem que seja só para a deslocação das telas já era bom. Daí a vontade de criar uma instituição que possa dar apoio aos futuros artistas.

No surrealismo do Carlos Saramago, se no dia de hoje (28 de setembro, 11 horas) pedisse para ires para a tela que cores é que irias escolher?

Azuis. Não sei porquê. Olho muito para o céu. O céu dá-me o infinito e acredito que há sempre qualquer coisa para lá. E esse infinito é das coisas que me dá mais curiosidade. O planeta [Terra] é fantástico, mas o que está para lá, para fora, é único. E esse infinito, quando olho para o céu, inspira-me.

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